O Dharma incomparavelmente profundo e de uma sutileza infinita é raramente escutado, mesmo em milhões e milhões de ciclos universais. Possamos nós agora ouvi-lo, aprendê-lo e guardá-lo. Guardemos cuidadosamente as palavras do Tathāgata.
Na palestra de hoje, em nome do Tathāgata, fala Saikawa Rōshi.
Ele me enviou algumas palestras para que eu escolhesse, e selecionei aquelas em que fala sobre o Genjōkōan. Elas são, na realidade, uma continuação das maravilhosas palestras feitas por Denshō Rōshi e por Mumon Rōshi. É magnífico poder transmitir os ensinamentos de nosso mestre neste momento.
Quero lembrar, como sempre, que o mestre e fundador desta comunidade, como recitamos todas as manhãs, é Saikawa Rōshi. Eu sou apenas um intermediário. Espero que meus alunos, um dia, sejam os continuadores dessa longuíssima corrente de 2.500 anos que começa com Buddha Shakyamuni e chega até este momento, até cada um de vocês: mentes que procuram o Dharma, que procuram libertar-se do sofrimento — tudo aquilo que Buddha Shakyamuni pretendeu.
Vou ler e, depois, podemos abrir para perguntas. As palestras de Saikawa Rōshi nunca são muito longas. Separei duas.
Ele começa situando seus alunos no momento em que escreve.
Saikawa Rōshi — “Sobre a prática do Zazen: Genjōkōan VIII”
O frio tem se tornado mais rigoroso. Espero, do fundo do meu coração, que todos estejam passando bem.
Nos dias 6 e 7 de novembro, datas da Cerimônia de Ascensão à Montanha (Shinsan shiki), fomos abençoados com um clima excelente, ensolarado e de temperaturas amenas, tornando aqueles dias verdadeiramente agradáveis.
Após deixar a residência do Sr. Masanori Takahashi, localizada próxima às ruínas do Castelo de Kuno, que gentilmente aceitou o papel de minha pousada oficial (Angesho), fiz os preparativos finais das minhas vestimentas no Centro de Convivência de Kasuisai.
Conduzido pelo som dos Horagai, pelo mestre de cerimônias e pelos demais auxiliares, cheguei ao portal principal (Sanmon), onde recitei os poemas de chegada ao portal (Sanmon Hōgo).
Quando os grandes tambores finalmente anunciaram a minha entrada no salão principal, o monge assistente (Jisha) me falou para olhar para o céu acima do salão de meditação (Sōdō). Bem acima do telhado do Sōdō, a lua cheia brilhava de maneira intensa.
Enquanto caminhava, contemplando por um instante aquela rara paisagem, dezenas de gansos selvagens cruzaram o céu acima do salão principal, voando de leste a oeste em uma formação perfeita em “V”. Ouviam-se vozes exclamando que aquilo era um sinal de ótimo agouro, e esse bando em “V” manifestou-se por três vezes.
Foi batendo o bastão de caminhada e subindo ao salão principal que ofereci minha profunda gratidão pelo auxílio espiritual de todos os congregados, de todos os envolvidos até o dia da cerimônia e de todos os veneráveis mestres que compareceram ao evento.
Shinsan shiki é uma cerimônia em que um mestre se torna abade de um templo. Chama-se “cerimônia de ascensão à montanha” porque, antigamente, os templos estavam nas montanhas.
Nessa cerimônia, o mestre sobe ao altar no lugar de Buddha. Cobre-se o Buddha, e o mestre sobe a uma plataforma e fala porque, naquele momento, ele é Buddha.
Saikawa Rōshi prossegue:
Como vínhamos estudando juntos o Genjōkōan do Shōbōgenzō, vamos dar continuidade:
“Não é apenas ao nosso redor que as coisas são assim; deve-se saber que o mesmo ocorre diretamente abaixo de nós e em uma única gota d’água.”
Aqui, ele faz uma tradução livre do texto antigo. O texto de Dōgen tem quase oitocentos anos, é um texto arcaico. Então Saikawa Rōshi o traduz para uma linguagem moderna:
As múltiplas formas e aspectos representados pelas virtudes das montanhas e dos mares não são fixas e não possuem limites. Elas são infinitas.
Saiba que o agora mesmo e cada gota d’água — ou seja, você mesmo — também são exatamente assim.
“Quando os peixes nadam na água, por mais que nadem, a água não tem fim. Quando os pássaros voam no céu, por mais que voem, o céu não tem fim. Contudo, desde os tempos antigos, os peixes jamais deixaram a água e os pássaros jamais deixaram o céu. É apenas que, quando a necessidade é grande, a atividade é grande; quando a necessidade é pequena, a atividade é pequena.”
Tradução livre:
O peixe nada na água, mas não importa quão longe vá, não há fim. O pássaro voa no céu, mas não importa quão longe voe, não há fim.
Apesar disso, o peixe nunca se separa da água e o pássaro nunca se separa do céu. Quando vão longe, simplesmente vão longe; quando não vão longe, apenas nadam ou voam por perto.
Não é necessário dizer que o que nos é mostrado aqui através do peixe e do pássaro somos nós mesmos.
Nós vivemos dotados das Seis Raízes — os órgãos dos sentidos: olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente —, e essas seis faculdades atuam sempre em unidade com as suas respectivas seis fronteiras.
Às vezes essa atividade é ampla e profunda. Em outros momentos, é pequena. E essa atividade manifesta toda a sua infinitude.
“Embora seja assim, e não haja momento em que não alcancem os limites em cada detalhe, e não haja lugar onde não deem reviravoltas, se o pássaro sair do céu, morrerá imediatamente; se o peixe sair da água, morrerá imediatamente.”
Tradução livre:
O peixe e o pássaro situam-se, cada um, em seu próprio mundo de plenitude, o que significa que vivem ao máximo no mundo que lhes cabe a cada instante. No entanto, se o pássaro sair do céu, ele morrerá; e, se o peixe sair da água, morrerá imediatamente.
“Deve-se compreender que a água é a vida e que o céu é a vida. O pássaro é a vida e o peixe é a vida. A vida se fez pássaro, a vida se fez peixe. Para além disso, deve haver ainda mais progresso. A prática-iluminação e aqueles que têm longevidade e vida são exatamente assim.”
Tradução livre:
Saiba que a água é a própria vida e o céu é a própria vida. O pássaro é a vida e o peixe é a vida. A vida se tornou o pássaro e a vida se tornou o peixe.
Ao avançarmos neste mundo de unidade absoluta, surgem tanto aqueles que realizam e atestam essa verdade quanto aqueles que a recebem e a vivem.
Meu comentário: aquilo que se aplica aos pássaros e aos peixes se aplica a cada um de nós.
A vida se faz homem.
Nós somos a própria vida. A vida se manifesta em nós. Nós somos a manifestação da vida.
Não somos nós que vivemos a vida. A vida é que nos vive.
Dōgen continua, na leitura de Saikawa Rōshi:
“Contudo, se existisse um pássaro ou um peixe que pretendesse nadar na água ou voar no céu somente após esgotar o que é a água ou esgotar o que é o céu, ele jamais encontraria o caminho ou o seu lugar na água ou no céu.
Quando se obtém este lugar, esta prática cotidiana manifesta-se naturalmente como o Genjōkōan. Quando se obtém este caminho, esta prática cotidiana manifesta-se naturalmente como o Genjōkōan — manifestação do kōan realizado aqui e agora.”
Tradução livre:
No entanto, se houvesse um peixe que tentasse nadar somente após desvendar completamente o que é a água, ou um pássaro que tentasse voar apenas após conhecer tudo sobre o céu, ambos perderiam o caminho e não teriam onde habitar, tanto na água quanto no céu.
O ato de agir e viver não acontece depois de decifrar e saber sobre tudo, mas simplesmente “agir e viver no agora”.
Se você realizar isso, isto é o Genjōkōan.

Este exato lugar é o caminho da vida, e é o kōan que se realiza no aqui e agora. Em suma, é o caminho livre de todos os apegos.
Enfim, como meios para nos conduzir ao mundo que existe antes e além das palavras, utilizam-se desde tempos antigos os movimentos, as obras de arte, a poesia e as canções.
Contudo, assim como muitos mestres ancestrais, Mestre Dōgen buscou transmitir essa mesma realidade através das suas próprias palavras.
Ainda assim, devemos compreender que tudo isso, no fim, nada mais é do que “o dedo que aponta para a lua”.
Meu desejo sincero é que todos compreendam perfeitamente que a verdadeira intenção e o propósito central é o Zazen, que nos guia diretamente à vivência e à realização dessa verdade.
Agora passamos para a segunda palestra, ainda sobre o Genjōkōan. Esta é a nona palestra. Estou poupando vocês de ouvirem dez…
De novo, Saikawa Rōshi nos coloca no lugar e no momento em que escreve:
Saikawa Rōshi — “Sobre a prática do Zazen: Genjōkōan IX”
Desejo a todos um feliz Ano Novo.
Este é o Ano do Cavalo, e há muitas histórias ligadas a esse animal que, desde os tempos antigos, foi profundamente valorizado não apenas no transporte de carga, mas também na agricultura.
Aqueles que apreciam o haiku certamente se lembrarão dos versos de Matsuo Bashō, famoso por sua elegância poética e sutil melancolia:
“Pulgas e piolhos
e um cavalo urinando
perto do meu travesseiro.”
Em tempos mais recentes, o cavalo foi muito estimado como animal de montaria militar. Rezando para que uma era como essa jamais retorne, prefiro pensar neles como o Pégaso que carrega o Imperador Celestial, brilhando silenciosamente no firmamento e nos enviando inspiração.
Pois bem, temos estudado juntos o Genjōkōan, capítulo do Shōbōgenzō de Mestre Dōgen. Vamos dar continuidade à leitura:
“Este caminho e este lugar não são grandes nem pequenos, não pertencem a si mesmo nem aos outros, não existiam desde o passado nem se manifestam apenas agora; é por isso que eles são exatamente assim.”
Tradução livre:
Este caminho e este estado de ser não possuem distinções como “grande” ou “pequeno”, nem dualidades como “eu” ou “o outro”.
Não surgiram apenas neste instante, nem são algo que aparecerá mais tarde; é precisamente por serem independentes disso que eles existem tal como são.
“Sendo assim, quando o ser humano pratica e realiza a Via Búdica, obter um Dharma é penetrar nesse Dharma; deparar-se com uma prática é realizar essa prática.
Nisto há um lugar e o caminho é plenamente acessível.
Por esta razão, o limite daquilo que se conhece não é evidente de imediato, pois este conhecer nasce e se pratica junto com o próprio esgotamento profundo do Buda-Dharma.”
Tradução livre:
Dessa maneira, quando alguém pratica a Via Búdica e alcança a iluminação, obter uma verdade significa compreender profundamente essa verdade, e deparar-se com uma conduta significa cultivar essa conduta.
Há um lugar para isso e o caminho está desobstruído.
Portanto, o limite máximo não é discernível de imediato, pois este saber coexiste e se exercita junto com a realização derradeira e oculta da própria lei búdica.
Por isso as coisas são assim.
“Não presuma que o lugar alcançado se tornará necessariamente o seu próprio conhecimento e será compreendido por meio do intelecto e da reflexão.
Embora a realização última se manifeste prontamente, a existência sutil e oculta não assume necessariamente a forma dessa manifestação externa; a manifestação não é algo previsível.”
Tradução livre:
Não se deve pensar que aquilo que foi obtido através da prática se transformará em mero conhecimento intelectual ou servirá de semente para os pensamentos.
Embora o despertar definitivo se realize num instante, a essência íntima e oculta das coisas não se expõe necessariamente de forma visível.
É preciso que ela se realize na prática concreta.
“Enquanto o Mestre Hōtetsu Zenji, do monte Mayoku, abanava-se com um leque, um monge aproximou-se e perguntou:
‘A natureza do vento é permanente e não há lugar onde ela não se atinja. Por que razão, então, o Reverendo ainda usa o leque?’
O Mestre respondeu:
‘Você apenas sabe que a natureza do vento é permanente, mas ainda não compreende o princípio de que não há lugar onde ela não atinja.’
O monge replicou:
‘Qual é, então, o princípio de que não há lugar onde ela não atinja?’
Diante disso, o Mestre apenas continuou a abanar o leque.
O monge fez uma reverência profunda.
A comprovação do Buda-Dharma e o caminho vivo da transmissão correta são exatamente assim.”
Tradução livre:
O Mestre Hōtetsu do monte Mayoku estava usando um leque quando um monge se aproximou e lhe fez uma pergunta:
“A essência do vento é imutável e preenche todo o espaço. Se é assim, por que o senhor ainda precisa usar esse leque?”
O Mestre então respondeu:
“Você apenas compreende intelectualmente que o vento é permanente, mas não conhece a verdade de que ele está presente em absolutamente todos os lugares.”
O monge insistiu:
“E qual seria essa verdade de que ele está presente em todos os lugares?”
Nesse momento, o Mestre limitou-se a usar o leque, sem dizer palavra.
O monge, então, inclinou-se em sinal de profundo respeito.
A maneira como o Buda-Dharma se prova claramente e é transmitido de forma correta na realidade é exatamente essa.
O Genjōkōan ainda não terminou, mas o que Dōgen Zenji pretendia nos transmitir com tudo isso?
Como já lhes disse anteriormente, houve uma pessoa que partiu em viagem em busca da verdade última.
Nessa jornada, encontrou os mais diversos fenômenos e adquiriu muitos aprendizados, mas a essência definitiva continuava escapando-lhe.

No entanto, ao retornar da viagem e sentar-se para recuperar o fôlego, algo se revelou com total clareza:
a verdade última sempre esteve presente, não importando quando, onde ou o que estivesse fazendo.
Ela já estava aqui antes mesmo de dar o primeiro passo para sair em sua busca.
O ser humano é tal que, mesmo quando lhe dizem “aceite a realidade exatamente como ela é”, ele não consegue fazê-lo com facilidade.
Mesmo quando nos dizem “Let it be” — deixe estar —, nossa natureza resiste em aceitar.
Sem ver com os próprios olhos e sem confirmar com os próprios pés, esta nossa viagem não chega ao fim.
Então, ouvimos diretamente de Saikawa Rōshi, traduzido diretamente do japonês, dois de seus teishōs.
Vamos ver que pergunta surge.
Uma das perguntas, em essência, é: como trazer essa fluidez para dentro da vida cotidiana?
É importante nos darmos conta de uma coisa: a iluminação de hoje não serve para amanhã.
A iluminação de hoje é a iluminação do momento de hoje. A iluminação de amanhã terá de ser recuperada, reconstruída.
Os mestres, mesmo velhos, não param de sentar em Zazen, porque você não pode se arriscar a perder sua compreensão.
A todo momento, a vida nos chama para o samsara. Chama-nos para a turbulência das coisas, para as memórias, para as expectativas, para as ansiedades.
Se nós não atualizarmos o nosso olhar, ele se perde.
Por isso, temos de voltar a cada momento à prática. Se não fizermos esse esforço, nós nos perderemos.
Esses dias alguém perguntou:
“Os mestres também ficam irritados ou furiosos?”
Mas é evidente. Eles estão vivendo no samsara, e existe um momento em que a paciência se vai.
Uma vez eu estava fazendo uma palestra junto com meu mestre, e uma pessoa da plateia perguntou:
“Eu não posso imaginar ser como vocês, assim tão calmos, tão maravilhosamente harmônicos com a vida. O que o senhor tem a dizer?”
E o mestre respondeu:
“É que a senhora ainda não chegou ao meu limite.”
Trata-se disso.
Aqui no sesshin é tão fantástico…
Alguém que estava fazendo samu comigo me observou e disse algo como: “Eu não podia imaginar que pudesse existir, neste mundo, um ambiente de tamanha harmonia, uma sensação de comunidade tão grande, um ambiente tão perfeito. Parecia impossível.”
No entanto, ele existe.
Mas existe aqui, no sesshin.
E este é o mesmo mundo em que pessoas jogam bombas umas nas outras, se matam, se maltratam e ignoram todo o sofrimento que decorre dos próprios atos.
Aqui pensamos: faça tudo da melhor maneira possível.
Não mande um prato sujo para a cozinha. Limpe seu prato. Não deixe nem um grão de arroz. Não desperdice.
Este é um mundo construído. Nós o construímos aqui.
O que deveríamos entender é que poderíamos fazer isso com o mundo inteiro.
Poderíamos construir outra sociedade, outro mundo. Isso é possível com as mesmas pessoas, desde que tivéssemos o Dharma suficientemente ensinado e espalhado.
Mas este mundo não é o paraíso de Tuṣita, não é a Terra Pura do Ocidente. Este mundo é o nosso mundo do samsara.
A cada momento somos chamados a nos perder.
Então, a cada momento, temos de voltar para nossa prática e controlar nossos impulsos, nossos apegos, nossas aversões.
Temos de repetir, repetir, repetir incansavelmente, porque o mundo todo conspira para nos afastar da harmonia e nos levar ao sofrimento, ao desespero, ao ódio, à inveja, ao ciúme.
Tudo isso está dentro de nós também.
Se permitirmos que tenha espaço, essas marcas kármicas se manifestarão.
Então não podemos regar essas sementes maléficas dentro de nós, senão elas brotarão, porque estão aqui dentro.
Temos de estar plenamente conscientes disso. Temos de ser vigilantes, porque dentro de cada homem também existe um potencial assassino, também existe um potencial mentiroso.
Nós compreendemos — e até nos horrorizamos com — as coisas que acontecem no mundo porque somos capazes de entendê-las. Compreendemos o mal porque o mal também está dentro de nós.
A prática, então, é todo o caminho.
Não existe nada que não seja a prática.
Como Dōgen ensina o tempo todo, e como os mestres vêm ensinando através dos tempos, não bastam as palavras. Não basta o ensinamento.
Temos de mostrar com nossas ações.
Temos de mostrar com as nossas palavras, com a maneira como falamos e, mais profundamente ainda, com a maneira como pensamos.
Então sentamos em Zazen, e vocês veem suas mentes. Aquilo que surge é aquilo com que vocês têm de lidar.
Não há nenhum terapeuta para enganar. Não há nenhuma pessoa amada para você iludir.
É só você ali, vendo a sua mente.
Esta é a sua verdade.
Por isso nos sentamos: para tratar dela, para lidar com ela, sem subterfúgios.
Em outra pergunta, voltamos à história do leque.
O mestre, ao usar o leque, deu uma resposta que está além das palavras. Uma resposta completa, além dos discursos, além das perguntas investigativas.
Aquela pergunta nem deveria ser colocada.
Ele está dizendo:
“O que você quer falar sobre o vento? Quando estou usando o leque e fazendo o vento em meu rosto, já está tudo respondido.”
Tudo pode ser modificado.
Na verdade, tudo está em aberto. Tudo pode ser mudado. Não existe nada sobre o qual possamos dizer: “Está sólido. É assim.”
Quando alguém diz:
“Eu sou assim. Quem gostar de mim terá de gostar de mim assim”,
está lidando com um grande engano.
Porque ninguém “é assim”.
A convicção dos mestres de que existe a possibilidade de mudança é o que leva Buddha a sair e ensinar o Dharma.
É o que leva o Dharma a ser ensinado: a convicção de que todos os seres podem realizar o Caminho de Buddha.
Todos têm dentro de si tathāgatagarbha, o germe de Buddha.
A longo prazo — longuíssimo prazo —, todos os seres serão Buddhas. Todos os seres poderão, um dia, despertar.
Não existe falta de esperança no Budismo. Não existe condenação eterna. Não existe nada disso.
Existe, na verdade, esperança eterna.
A única coisa é que o tempo rapidamente transcorre e a oportunidade se perde.
Por isso, a cada dia aquele verso é repetido.
Você perdeu a oportunidade da iluminação de hoje? Amanhã, outra chance.
Quando morrer, fecha os olhos e abre os olhos em outra manifestação: outra chance. Outra chance.
Todos os que estão aqui estão há milhões de anos recebendo chances.
Estarem aqui já é uma manifestação da própria esperança de que é possível se libertar.
E, na realidade, os mestres não desistem dos alunos.
O normal é que o aluno desista do caminho, porque é duro.
Mas o mestre ambiciona ser enterrado ainda usando as vestes de Buddha.
Mesmo que não tenha conseguido ser um Buddha — e ele nem pretendeu isso —, ambicionou apenas ser um ser de compaixão, ter a bondade de trabalhar pelos outros até o fim, sem desistir, e recomeçar em outra existência fazendo a mesma coisa.
Porque o voto do Bodhisattva é salvar todos os seres, mesmo o pior deles.
Isso me lembra outro ensinamento interessante.
Nós deveríamos ser bons sacos de lixo.
Muita coisa ruim acontece na vida. Muitas coisas.
Se tivermos o comportamento de um saco de lixo, ele aceita aquilo que não serve, aquilo que já está estragado, aquilo que seria veneno se fosse consumido.
Ele aceita sem reclamar. Não protesta, não devolve, não reage.
E desaparece com aquilo.
Todos nós deveríamos nos esforçar para ser bons sacos de lixo.
Vamos a mais algumas perguntas.
Sobre o “eu”: na realidade, o eu existe.
É um engano simplesmente dizer que o eu não existe.
Seria como dizer que meu número de identidade não existe. Existe.
Mas ele é apenas uma construção.
Ele não é sólido. Não é uma realidade última.
É uma fantasia que uso para transitar neste mundo.
Na vida diária, você usa seu eu e existe o outro.
É como um baile de fantasias. O outro usa uma fantasia, você usa outra, e vocês estão no baile da vida.
O problema é irmos para casa, tirarmos a fantasia, colocá-la em um cabide e dizermos:
“Ali estou eu.”
Aí estamos elaborando um incrível engano.
Você se fantasiou de Colombina. Foi ao baile como Colombina. Chega em casa, tira a fantasia de Colombina e não pode dizer que deixou de existir porque Colombina era apenas aquela fantasia.
O problema real é que nos identificamos com a fantasia e acreditamos que somos esta pessoa.
Nós não somos esta pessoa.
Meus mestres aqui estão usando mantos. Eu estou usando um manto. Estou fantasiado de monge.
Quão bom monge eu serei vai depender dos meus atos, mas que se trata de uma fantasia, trata-se.
Ela possui aquilo que se chama eficácia simbólica.
Por que estou usando o manto?
Porque fui nomeado abade. Então tenho o poder de estar aqui e falar com vocês.
Se eu tivesse entrado nesta sala usando bermuda e camiseta regata, vocês provavelmente não me ouviriam com o mesmo respeito.
Então usamos meios hábeis: as ordenações monásticas, as vestes, a hierarquia, a disciplina.
Todas essas coisas são construções.
Não são realidades últimas.
Para a realidade última, nada disso possui solidez alguma.
Tudo são construções que utilizamos em nossa vida.
Quando você está transitando no mundo, há o seu “eu” e há o outro.
Você tem seu cargo de médica. Por que você é médica? Você possui determinada autoridade na medicina e as pessoas tomam os medicamentos que você prescreve.
Esse título é necessário? O diploma, o jaleco de médico?
Sim, são necessários.
Se não tivéssemos essas coisas, o mundo não funcionaria direito.
É necessário certo ritual. São necessárias certas coisas que provocam o respeito à autoridade e organizam as relações.
Os rituais não são inúteis.
Talvez uma das coisas que mais ouço seja:
“Não gosto de rituais. Quero praticar Zen, mas não gosto de rituais.”
Eu tinha essa ideia também.
Ao longo do tempo, fui compreendendo que os rituais eram profundamente necessários.
Quando falei disso com meu mestre, ele explicou que os rituais são necessários para criar o clima na Sangha, para criar as condições para que os ensinamentos sejam transmitidos.
Então temos esse ser: “eu”, “o outro”.
É fantasia? Sim.
É construção? Sim.
Mas o mundo funciona com ela.
Nós temos é que entender os limites disso.
Saber que são fantasias e não acreditar:
“Ah, porque eu sou médica, então sou uma divindade.”
É uma coisa que acontece em certas profissões.
Tenho um amigo aqui que é juiz, e nós já conversamos sobre isso.
Todo aquele ritual e todos aqueles termos — “meritíssimo”, “Vossa Excelência” etc. —, dia após dia sendo repetidos, podem criar uma ilusão.
Há até aquela piada no meio jurídico: os juízes acham que são deuses, mas os juízes federais têm certeza.
Vão se criando essas coisas que nos iludem e nos enganam.
Buddha também foi enganado pelo seu eu. Por isso sofreu angústia existencial.
Quando se ilumina, o que ele diz?
“Meu eu, você não me enganará mais.”
Então esta é a resposta:
Sim, usem seus “eus”. Usem seus títulos.
Mas não se enganem.
São apenas fantasias.
Outra questão é a vacuidade e aquilo que chamamos de verdade última.
Nós olhamos para um mundo de manifestações.
Temos uma excelente analogia, que é o mar.
Vemos todas as manifestações. Nós mesmos somos manifestações da vida.
Olhamos essas manifestações e pensamos: “Isto é a verdade.”
Mas não é a verdade última.
Você olha o mar e vê ondas surgindo e desaparecendo. Ondas que nascem e morrem.
Se olhar o mar e pensar que ele são as ondas, a espuma, as bolhas, estará vendo apenas as aparências.
A verdade última é o oceano.
O restante são aparências que surgem e desaparecem.
Há uma história de muitos anos atrás.
Eu estava fazendo uma palestra no interior de São Paulo, e havia uma menina — hoje já é uma médica formada.
Eu expliquei usando uma garrafa de champanhe.
Somos como bolhas que surgem e desaparecem.
Nada foi perdido.
O mesmo CO₂, o gás carbônico que estava ali, surge na forma de uma bolha. Você vê a bolha, mas ela não é nada além da interação entre o gás carbônico e o líquido.
A bolha estoura na superfície e desaparece.
Mas todo o gás carbônico continua lá. Todo o champanhe continua lá.
Depois, essa menina foi para casa com a mãe.
A mãe foi quem me contou a história. Disse:
“Vamos já para a cama, suas bolhas!”
E a menina olhou para ela e respondeu:
“Bolhas são vocês. Eu sou o champanhe.”
Fiquei fascinado com a história.
Porque ela revelou o que é a verdade última.
A verdade última é o champanhe.
O restante são as aparências que surgem e desaparecem.
Nós somos a própria vida.
Ficamos pensando:
“Eu nasço, eu morro, eu surjo, eu desapareço.”
Bobagem.
Se, pensando nas bolhas, vocês entenderem que são o champanhe, então compreenderão a verdade última.
E quem compreende a verdade última entende que morte e nascimento são apenas aparências.
Quem compreende isso perde o medo de morrer.
Sobre o poema de Bashō que apareceu no texto de Saikawa Rōshi: não é um kōan. É um poema, um haiku.
Ele fala de estar dormindo, das pulgas e dos piolhos, e de um cavalo urinando ao lado do seu travesseiro.
Esse é o sonho.
O haiku tenta mostrar a realidade última de outra forma, mostrando o instante.
Temos também haikus brasileiros. Há um de que gosto muito:
“Meio-dia.
A sombra se esconde
embaixo do homem.”
É um instante de compreensão pura.
Você está usando palavras, mas, como um monge me disse uma vez, a poesia é uma maneira de dizer com palavras aquilo que é impossível dizer com palavras.
É uma arte maravilhosa.
É impossível expressar, mas, com o artifício da poesia, com essa imagem — um cavalo urinando ao lado do meu travesseiro —, algo pode ser mostrado.
Bashō foi realmente um grande poeta.
Isso aparece muitas vezes em seus poemas.
O significado do haiku está sempre mais fundo do que a aparência, além da mera aparência, além da mera lógica.
Que possamos ter ouvido e, agora, guardar o Dharma que é mesmo incomparavelmente profundo e de uma sutileza infinita, raramente encontrado, mesmo em milhões e milhões de ciclos universais.
Muito obrigado a todos.
Texto de Genshō Rōshi 玄祥. Abade do Templo Daissenji.
Escola Soto Zen.
