Alguns ritos podem ter o poder de reviver a história, de trazer o significado original para o agora, fazendo nossas vidas romperem as bordas do hoje. Assim, transbordando o presente, ressignificamos nossas existências, adicionando novas camadas ao solo sobre o qual firmamos nossos pés.
Por volta de 2.500 anos atrás, deixava pegadas nessa mesma terra um asceta que trajava farrapos, dormia ao relento, esmolava sem fazer distinção entre a qualidade do alimento ou a classe do doador e contemplava corpos em decomposição nos campos de cremação. Alguns monges, com olhos ainda turvos pelo mundano, o encaravam com desprezo. Perguntavam entre si como podia ser digno de ser um seguidor do grande desperto alguém tão magro e malvestido, alguém cujo manto já fora tantas vezes remendado e que estava impregnado pela poeira dos cemitérios.
Notando isso, Buddha toca o ombro daquele que, muito tempo depois, seria conhecido em terras estrangeiras como Mahākāśyapa e dá a ele a palavra. O Dharma exposto em sua fala era o Dharma verdadeiro de alguém que, em outro momento, sorriria para uma flor erguida nas pontas dos dedos de seu mestre.
Esse monge não se deitava para dormir, pois, para ele, não havia energia ou tempo para se despender em qualquer coisa que não fosse o próprio caminho espiritual. No primeiro encontro com o mestre, ofereceu seu luxuoso manto para que o Tathāgata pudesse se sentar nele e, em troca, recebeu o surrado manto do homem conhecido como Anuttaro purisa-damma-sārathi, o inigualável condutor de todos os seres capazes de serem treinados.
Hoje, quando um grupo de monges se reúne para um Hossenshiki, está revivendo simbolicamente essa relação arquetípica de confiança entre mestre e discípulo. O líder dos noviços, o shusō, é chamado pelo Hōdōshi, o “Mestre da Bandeira do Dharma”, para se testar diante de seus companheiros de Sangha e de mestres convidados. Não se trata de uma prova de conhecimento teórico, mas muito mais de uma cerimônia na qual o Dharma deve fluir sem preparação, em respostas espontâneas dadas às perguntas vindas dos outros monges e praticantes.
Em nossa pequenez, não há qualquer pretensão de nos compararmos com Buddha ou Mahākāśyapa, mas deve haver a entrega sincera de evocar aquele passado com tanta sinceridade que o tornamos, mais uma vez, ao menos simbolicamente, real e atual, apesar de nossas falhas e limitações.
Nas cerimônias, idealmente, o indivíduo dá lugar à função que ali ocupa. É preciso desaparecer para que o ritual se dê verdadeiramente. Durante o período em que vivi em um mosteiro de treinamento no Japão, certas vezes me pegava contemplando alguma cerimônia da qual participava como se ali não estivessem meus companheiros de angō, cada um com sua personalidade e sua história, uns mais próximos de mim do que outros, mas apenas vestes monásticas sem rosto se movendo pelo hattō, oferecendo incensos, fazendo prostrações, tocando sinos e mokugyos. Em tais situações, eu sentia que poderia estar no Japão medieval e não haveria qualquer diferença. Eu mesmo parecia não estar ali enquanto tinha meus gestos ditados pela coreografia cerimonial.

O treinamento oficial acabou, voltamos ao Brasil, mas tal sensação permaneceu marcada em mim e voltou a se manifestar algumas vezes em meio a atividades rituais.
Em outubro de 2025, eu estava no Daissenji, o templo de nossa comunidade em Florianópolis, incorporando a função do shusō, tendo Monja Kakuji como minha benji. Agora, ela era a shusō e, de alguma forma, era como se eu o fosse novamente. Desde o nosso início no budismo, nos sentamos juntos nas mais diversas condições. Horas de estradas empoeiradas pela Ásia entre um retiro e outro, anos de uma prática silenciosa na qual tivemos um ao outro como testemunha. Doenças, cansaço, perigos, tudo compartilhado. Conhecemos nossas falhas e nossa entrega. Assim, quando vejo as lágrimas que escorrem de seus olhos durante a cerimônia, sinto-as como minhas também.
Um rio que tudo arrasta
Dez mil pés de queda d’água
Um manto que cobre o cosmos
A nudez da prática diária
Todos os fenômenos e o despertar dos buddhas.
Cada ponto da costura do kesa é uma prostração para a unicidade.
Quando ela diz isso empunhando o shipei, um bastão que é, ao mesmo tempo, uma serpente venenosa de um metro de comprimento, é possível ver todos os shusōs do passado e do futuro. Quando ela se prostra diante de nosso mestre, se prostra diante de toda a linhagem. Assim, a prática de Buddha é atualizada. O olhar correto poderia ver que o pequeno hattō de Florianópolis continha a Índia antiga de Mahākāśyapa, a China de Pai Chang e Tendō Nyōjō, o Japão de Dōgen e Taigan Doshō.
Texto de Monge Muryo 無量. Daissenji. Escola Sōtō Zen.
