Uma coisa útil é aquela que tem valor fora de si. Um carro é útil porque nos leva de um lugar para outro; um copo é útil porque acomoda volumes líquidos; e um medicamento é útil porque alivia a dor. Dessa forma, quando nos sentamos sem objetivos, o zazen se torna inútil, pois não tem valor fora de si mesmo, não nos leva a lugar algum, “não serve para nada”, como falava Kōdō Sawaki. Estamos acostumados a fazer as coisas com objetivos, com alguma finalidade. Na sociedade do resultado e da produtividade, fazer algo sem objetivos soa estranho.
O produto chamado meditação promete redução da ansiedade, mais foco e calma. Mas o zazen não é um meio para um fim. Assim como um pássaro voa por voar e o vento venta por ventar, deveríamos nos sentar por sentar.
Ser inútil não significa niilismo. Significa que o valor do zazen não está no que vem depois; o valor está no próprio ato, está no agora. O Zen não é spa, não é autoajuda. O zazen é nu, duro e inútil e, justamente por ser inútil, não pode ser comprado ou corrompido. Se o zazen fosse útil e tivesse um objetivo no devir, poderia se tornar um produto, poderia ser vendido. Mas ele, em essência, é pouco praticado porque queremos algo que melhore nossas vidas, e o Zen não entrega nada; pelo contrário, tira-nos o chão. O problema não é trabalhar, mas trabalhar para obter algo, obter reconhecimento, tornar-se “alguém”, trabalhar por dinheiro ou poder. Cada tarefa realizada nesse sentido torna-se uma espécie de chantagem com a existência.
Sentamo-nos por sentar. Não existe um objetivo, não existe um final ou uma linha de chegada. Não existe um resultado a ser obtido. Estar no caminho, ser o caminho: é aí que está o valor da prática. Kōdō Sawaki dizia: “Zazen é como o amor: se você pergunta o que ganha, já perdeu”. E continuava: “Ganhar a vida? Você já ganhou quando nasceu. Agora apenas viva”. Quando fazemos algo que não serve para nada, isso não nos deixa passivos, torna-nos livres, porque, quando a ação não é refém do resultado, temos mais chances de fazer melhor.
O Zen não nos leva a nenhum lugar, porque não há lugar algum para ir, não há ir e vir, não existe nascimento e morte. Não precisamos nos tornar alguém melhor ou desperto. Já somos o absoluto, apenas estamos cegos pelo véu da ignorância. Mas somos doutrinados no upgrade, nas melhorias e na evolução. A sociedade do empreendedorismo e dos resultados nos cobra isso todos os dias.
Certa vez, assisti a uma palestra em que a pessoa perguntava: “E se o dinheiro não existisse, o que você gostaria de fazer?”. O objetivo era fazer as pessoas pensarem no que gostavam de fazer, e não no que dava dinheiro. Assim como projetamos um ganho no trabalho, projetamos um ganho no zazen. Mas e se Buddha surgisse hoje e nos dissesse: “O zazen nunca lhe dará paz, nunca o levará ao despertar”? O que faríamos? Se a resposta fosse “Continuaria a me sentar, sei lá por quê”, então estaríamos nos sentando por sentar. Do contrário, estaríamos nos sentando com objetivos, fazendo uma chantagem com a prática: “Tudo bem, continuo me sentando, mas me dê algo em troca”.
Praticar sem ganho é confiar que a vida já se justifica. Dōgen falava em mushotoku (無所得), “sem ganho”, ou fuzenna no shugyō (不染汚の修行), que significa “prática não contaminada”, para falar sobre a prática que não está poluída pelo desejo de ganho. Kōdō Sawaki complementava: “Não conte com a iluminação, apenas sente-se”. Dōgen Zenji criticava a meditação utilitária, focada em um objetivo. Acredito que ele pensava que o zazen é o próprio Dharma acontecendo: não leva a nada porque já é tudo. Se praticamos para obter algo, criamos a dualidade: nós aqui e o despertar ali.
No Bendōwa (辨道話), Dōgen Zenji diz: “Não pense que a prática é um meio para o despertar. A prática é o despertar em ação”. Ou seja, não coloque um objetivo em sua vida. A vida não é um meio para se chegar a algum lugar. A vida é o lugar. Já estamos onde deveríamos estar. Somos o vazio fazendo ondas de nós mesmos. A onda não viaja; a água apenas sobe e desce. Somos nós que temos a impressão de que vamos a algum lugar, mas, na verdade, não vamos nem voltamos.

Nascimento é o vazio inspirando, e morte é o vazio expirando. Mas chamamos isso de “meu nascimento” e “minha morte” e, então, sofremos. Não somos nós que vivemos; é a vida que nos vive. Não viemos ao mundo. Somos frutos do vazio, assim como uma folha pertence à árvore. Como uma goiabeira dá goiabas, o vazio “dá” seres humanos. A folha não chega à árvore; é a própria árvore se expressando como folha. Assim como a onda é o mar ondulando, o vazio, temporariamente, humaniza-se. Kōdō Sawaki dizia: “Você não tem uma vida. A vida tem você”.
O Zen não é o caminho de volta para casa; é perceber que já estamos em casa. Quando alguém nasce e dizemos: “Ele veio ao mundo no dia…”, já criamos uma dualidade para essa nova manifestação, pois existe ele ali e o mundo ao qual ele veio aqui. É como se o nascimento fosse uma migração e a morte, uma deportação. Esse pensamento, na verdade, contém uma trialidade: o lugar de onde viemos, o mundo ao qual chegamos e o “eu”. No entanto, o que acontece é o vazio ganhando forma.
A morte, sentida como deportação, é nosso maior medo: o medo de sermos “expulsos” e não termos para onde voltar. A ideia budista de que não existe um ir e vir, um lugar de onde viemos e, muito menos, um lugar para onde ir nos apavora. Por isso, criamos deuses, paraísos e reencarnações.
No Genjōkōan (現成公案), do Shōbōgenzō (正法眼蔵), Dōgen Zenji nos ensina: “Quando um peixe nada, não existe um fim para a água. Quando um pássaro voa, não existe um fim para o céu”. O peixe não veio para a água; o peixe é a água “peixando”.
Tudo isso nos tira um grande peso porque, se o vazio é um grande país e não somos imigrantes prestes a ser deportados, não precisamos de visto de permanência. Já somos o país, já somos o vazio.
Texto de Monge Chūdō 忠道 . Daissenji. Escola Soto Zen.
