Sesshin Internacional Zero

Em junho, mais de 80 pessoas se reuniram por quatro dias para o Sesshin Internacional Zero da Comunidade Zen-Budista Daissen. Sentamo-nos em zazen, compartilhamos o Nobre Silêncio, fizemos nossas refeições com ōryōki, tivemos chōka e baika e vivenciamos a cerimônia de hossenshiki da Monja Kakuji. Estiveram conosco mestres de diferentes países: Denshō Quintero Rōshi, abade de Daishinji, na Colômbia, e Mumon Rōshi, abade de Kōrinji, na Argentina, além de Genshō Rōshi, abade do templo Daissenji.

Foram quatro dias em que a prática ocupou praticamente todas as horas. Sentar, levantar, caminhar, comer, trabalhar, ouvir o Dharma, cantar, fazer silêncio, sentar novamente. Um sesshin cria condições muito particulares: por alguns dias, afastamo-nos do ritmo habitual e nos submetemos a outra organização do tempo, do corpo e da mente.

Genshō Rōshi costuma dizer que, em um sesshin, criamos uma espécie de crise artificial. Retiramos algumas das condições com as quais normalmente nos distraímos e construímos outras, deliberadamente, para levar corpo e mente a um estado diferente daquele em que habitualmente funcionam. Os que puderam estar presentes experienciaram aonde a prática pode nos levar quando deixamos de negociar com ela.

Dizemos que a Sangha é o lugar da harmonia. Em silêncio, mas uníssonos, esses dias tornaram possível reunir nesta edição de Budismo Hoje ensinamentos que se encontram de maneira muito natural.

Saikawa Rōshi não pôde estar fisicamente conosco por motivos de saúde, mas esteve presente de outras formas. Para o sesshin, enviou palestras cuja tradução encomendou especialmente para que Genshō Rōshi pudesse transmiti-las à Comunidade Daissen. Monge Genshō escolheu duas delas, ambas sobre o Genjōkōan, leu as palavras de seu mestre e, a partir delas, fez seus próprios comentários. Ao iniciar a palestra, lembrou à Sangha que Saikawa Rōshi é o mestre e fundador da Comunidade e definiu a si próprio, naquele momento, como “apenas um intermediário” de uma corrente que atravessa 2.500 anos e chega até cada um daqueles que procuram o Dharma. 

Aqueles que estavam presentes puderam vislumbrar também um tempo em que mestre e discípulo conviveram juntos, “assim como a sombra segue o próprio corpo”. Genshō Rōshi acompanhava seu mestre, então Sōkan da Missão Sōtōshū da América Latina, em palestras, visitas a comunidades e na propagação do Dharma. Durante o sesshin, Saikawa Rōshi enviou ainda um vídeo dirigido à Comunidade Daissen. Nele, desculpou-se por não poder estar presente e expressou seu apoio ao discípulo: “Ele realmente compreende o que eu lhe disse.”

Há uma conversa entre os dois que Genshō Rōshi costuma recordar. Diante das limitações da linguagem, perguntou ao mestre: “Se as palavras são tão falhas, por que continuamos a usá-las?”. Saikawa Rōshi respondeu: “Porque é tudo o que temos.”

As palavras foram, também naquele sesshin, o que tivemos. Denshō Quintero Rōshi nos lembrou que o caminho não pode ser percorrido por outra pessoa e que, para Dōgen Zenji, zazen não é uma técnica para obter alguma coisa: prática e realização não estão separadas. Mumon Rōshi falou da vacuidade não como abstração filosófica, mas como algo que precisa se concretizar na vida cotidiana. Monge Chūdō levou ao limite a ideia da prática sem ganho ao afirmar que “zazen é inútil”: não é um meio para chegar a outro lugar, porque seu valor está no próprio ato de sentar. 

O hossenshiki vivido durante o retiro trouxe outra expressão desse mesmo movimento. Monge Muryo escreve que certos ritos têm o poder de “reviver a história”, trazendo seu significado original para o agora. Na cerimônia, mestre, discípulo, Sangha, gestos, vestes e palavras atualizam uma prática que não começou conosco e não termina em nós. Ao falar naquela noite, Monja Kakuji percorreu essa mesma linhagem a partir da relação entre mestre e discípulo, chegando ao que está mais próximo: nossa própria condição humana. 

Nesse movimento entre 2.500 anos de transmissão e este instante, o sesshin nos permitiu experimentar concretamente o que tantas vezes encontramos nos textos: uma linhagem só permanece viva quando o Dharma volta a acontecer – em um ensinamento, em uma cerimônia, no silêncio, no corpo sentado.

Agora, quase três meses depois do sesshin, enxergamos que, sim, o retiro termina. O silêncio termina. Guardamos os ōryōki. Voltamos às nossas casas, aos compromissos, às relações e aos ruídos naturais da vida. E, nesse decorrer de espaço-tempo, aquilo que aconteceu durante quatro dias encontra sua medida.

Genshō Rōshi disse durante o sesshin que “a iluminação de hoje não serve para amanhã”. A vida nos chama continuamente de volta às expectativas, às ansiedades, aos apegos e às aversões. Por isso, é preciso atualizar o olhar e retornar à prática. De novo, e de novo. 

Falando sobre o ambiente vivido durante aqueles dias, ele observou: “Este é um mundo construído. Nós o construímos aqui.” E acrescentou que, se conseguimos construí-lo durante um sesshin, podemos compreender que outras formas de estar no mundo também são possíveis. 

Esta edição do Budismo Hoje nasce em meio a esses quatro dias de sesshin. As páginas que seguem guardam algumas das palavras que escutamos. Palavras que Saikawa Rōshi enviou de longe, palavras de mestres que atravessaram fronteiras para praticar conosco, palavras de nossa própria Sangha. Todas elas permanecem limitadas, como Saikawa Rōshi ensinou a seu discípulo. Mas são o que temos.

Depois delas, resta fazer aquilo a que apontam.

Sentar.


Editorial
Budismo Hoje