Um Koan, uma dor, um mestre e um pai

Em uma cela de cerca de um metro de largura por um e meio de comprimento, me sentava em uma almofada. O som dos grilos e dos sapos se misturava aos dos pássaros que começavam a acordar enquanto, de olhos fechados, eu pressentia os primeiros raios de sol secando o orvalho do lado de fora. A única iluminação vinha da lâmpada fraca e amarelada do corredor que penetrava pela pequena saída de ar acima da porta. Nessas primeiras horas de meditação do dia, não era incomum eu chorar o mais em silêncio possível para não perturbar os praticantes nas celas próximas. 

Agora, tantos anos depois, me lembro dessas cenas enquanto caminho ao lado do meu mestre, esperando o passar dos últimos minutos antes de que o bloco de madeira pendurado por uma corda fosse golpeado três vezes anunciando que eu deveria conduzi-lo ao zendō para que fizesse a oferta de incenso e desse início a mais uma sessão de zazen.

Ouço a pergunta: “mas qual era motivo do seu choro?” A resposta imediata é “por causa da tristeza pela morte do meu pai, meu melhor amigo, e da revolta que senti pela falta de sentido de tudo aquilo. De um dia para o outro, ele não estava mais ali, não me traria mais livros, empilhando-os na minha mesinha de cabeceira e me explicando a importância de eu ler cada um deles; não se sentaria novamente diante da lareira me falando sobre a dança da vida que ali naquelas chamas era reencenada; não apreciaria, da varanda, uma tempestade com seus raios, ventos e água; não me levaria para exposições e nem me explicaria a grandeza por trás das pinceladas e a pequenez dos dramas humanos exposta na biografia pessoal dos artistas; não me ouviria relatar todos os detalhes técnicos das minhas últimas lutas de jiu jitsu e nem leria mais qualquer artigo que eu escrevesse.” Tínhamos pouco tempo para as três batidas de moppan e eu disse menos do que isso, disse que, à época, sentia sua morte e que olhava para seus quadros pendurados nas paredes de casa e pensava em quanta energia, quanta vida, ele entregou àquilo tudo e que, então, ele tinha morrido, da noite para o dia, e que, então, nada parecia mais fazer sentido. Para quê pintar? Para quê viver, se apaixonar, estudar e criar, se, no fim, tudo se desmancharia no ar?

Meu mestre já há muito me ensinou que não há mesmo sentido algum na vida e que a cada passo nós é que damos sentido a ela. Hoje sei, hoje sinto isso em minha medula, mas não era assim há anos quando tudo aconteceu. E é por isso que eu chorava naquela cela, quase todas as manhãs daquele retiro. Agora, era preciso ir, quase 50 pessoas esperavam no zendō pela entrada do Rōshi. Faço sinal para o shōsu e ele bate no moppan três vezes, retiro o isqueiro da manga do kimono e acendo o incenso ao mesmo tempo em que falo: “Sensei, o que eu já percebia era que meu pai nunca se traiu, ele viveu intensamente de acordo com o que acreditava ser o mais correto”. Seguro o incenso com três dedos de cada mão o ergo diante do peito e abaixo o tronco em reverência àquele que me guia no Caminho. 

Agora, quando me recordo das lágrimas nos primeiros retiros, é como se tivesse acesso a uma vida passada. Tanta coisa aconteceu desde então, tanto foi percorrido, que olho com compaixão para aquele ser humano em silencioso sofrimento. Aquele não era o Muryo, embora contivesse o embrião do monge que um dia seria criado pelo mestre. Mas para isso, muito havia o que ser caminhado. Cada sessão de meditação era permeada por intensas dores nas costas e pernas, a aversão era grande e eu só não desistia por não ser essa, nunca, uma possibilidade. Eu precisava do Dharma e sabia disso, intuía com todas as minhas forças que só ali encontraria as respostas. Hoje, mais de uma década mais velho, com três cirurgias nos joelhos e uma hérnia de disco, as dores devem ser maiores, mas não há aversão, quando chego ao zafu, tudo o que sinto é uma tranquila felicidade.

Ao me sentar, a pergunta do Sensei volta como um koan “mas qual era motivo do seu choro?”. Sinto como se não houvesse conseguido respondê-la verdadeiramente e sei que isso é preciso, cada pergunta do mestre deve ser respondida e a busca pela resposta deve tomar inteiramente o discípulo. Responder qual o verdadeiro motivo para as lágrimas de anos atrás implica em dizer o porquê de elas estarem ausentes hoje, que causa era essa que não existe mais? Essa resposta veio aos poucos, ao longo dos anos. Primeiro em uma manhã nublada na qual eu sentia que minha respiração acontecia em conjunto com toda a mata que cercava um centro de meditação no qual eu estava; depois, em uma outra cela, em outro continente, entre monges theravadas e praticantes leigos na cidade de Battambang, no interior do Camboja, quando muito se dissolveu em mim e nenhum passo voltou a ser como antes e, hoje, só em lembrar, sinto resquícios das sensações físicas daquele dia quente; poucos anos depois, caminhando em meditação com os monges discípulos de Thich Nhat Hanh, sentia que quase nenhuma dor mais restava daquela perda. 

Mas a resposta também veio como um raio, imediata, incontestável e indescritível, oito anos após o início formal da minha prática, talvez no oitavo de um retiro de 32 dias. Ali, tudo se resolveu, até mesmo o que eu pensava que já havia sido resolvido. Naquele momento, não só não existia a ausência como não existia outro tempo em que houvesse uma presença agora perdida. Falar sobre isso é inútil e qualquer tentativa de transpor em palavras já nasce fadada ao fracasso. Mas o que importava estava ali escancarado. Hoje resta a lembrança, mas também mais do que isso, é como uma marca indelével, ali eu sabia que o Dharma nunca mais sairia da minha vida. A Lua que me encarou quando saí da sala de meditação me é mais viva e real do que a que acabei de olhar, ao me levantar de onde escrevo e caminhar até a varanda.

O koan com o qual meu mestre me presenteou, minutos antes de me sentar em zazen, me fez reviver meu caminho nesta manifestação. Hoje aprecio cada passo, não só os meus como também os do meu pai. Certa vez ele escreveu:

Creio no exercício, no ofício, no zazen; que na prática está a coisa, o espírito da coisa. Creio no processo, no valor do ato criativo independente do produto e do seu próprio destino de comunicação. “Creio na obra como autora do autor”

É isso, ele criou conscientemente o sentido de sua vida. A cada tela terminada, a cada poesia escrita a obra criava o autor. Cada voto, o de pobreza, o de silêncio, dava contorno ao tecido da própria existência. Hoje, não sinto qualquer tristeza ou revolta pela sua partida, pois hoje entendo que não houve partida. Em cada dokusan ele está presente em minhas palavras e, então, conversa com o meu mestre fechando o ciclo da criação de um monge. Ele está presente nas prostrações que faço e nos incensos e abraços que ofereço, ele conhece tanto quanto eu o meu zafu, conhece as dores do meu ciático inflamado e percebe a total falta de importância delas. Meu pai falava que, juntos, Kakuji e eu poderíamos mudar o mundo e que tudo o que precisávamos era alimentar mentes lúcidas o suficiente para isso. Ele estava certo, o mundo mudou completamente. Se transformou a cada sesshin, a cada zazen, a cada recitação de refúgios. O mundo foi completamente revolucionado quando dissemos diante de Buddha “sim, aceito completamente”. Agora, no último dia de sesshin, sentado ao lado do mestre e da sangha sinto isso tudo com total certeza e volto a chorar, mas as lágrimas são de pura felicidade.

Meu pai acreditava na obra como autora do autor… Eu creio no zazen como autor do monge. Por isso, mestre Dōgen afirmava que prática e despertar são indistinguíveis. Após a primeira palestra do Sensei nesse sesshin, Kakuji e eu nos abraçamos emocionados, no meio do pátio. Só queríamos fazer sanpai para nosso mestre, para aquele que carrega toda a linhagem com a simplicidade de quem bebe um gole de café e oferece um sorriso para quem está na cadeira à sua frente. Esse texto é isso: nossas prostrações para o nosso pai espiritual. Porque eu e Kakuji somos marido e mulher, somos companheiros de Caminho e somos, ao mesmo tempo, irmãos de sangha, filhos do mesmo homem: Genshō Rōshi.

Texto de Monge Muryo 無量. Daissenji. Escola Soto Zen.

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