Ninguém sabe exatamente o que é a consciência. Não existe uma resposta definitiva para isso.
Nós não sabemos em que momento surgiu aquilo que entendemos como consciência da nossa auto existência — isto é, a percepção de que existimos.
É sempre bom citar Descartes, que começa o seu Discurso do Método, toda a sua elaboração mental, com a afirmação:
— Cogito, ergo sum
— Penso, logo existo.
Essa é a primeira colocação dele. Mas, no Zen, nós não aceitamos isso, dessa forma. A formulação correta, do ponto de vista Zen, poderia ser:
— Eu penso; por isso, penso que existo.
Ou seja: eu cogito e, por isso, tenho a sensação de uma existência. Quando Buddha se ilumina, diz para si mesmo:
— Você, meu eu, não me enganará mais.
Então, na verdade, todos nós estamos enganados, porque acreditamos que temos um “eu” real, sólido.
Como surge essa sensação, do ponto de vista budista?
Ela surge pela sucessão de momentos de consciência. Eu já expliquei isso várias vezes, mas, para estruturar esta palestra, precisamos começar por aí.
Imaginem que os momentos de consciência sejam como os fotogramas de um filme.
Quando vemos um filme, temos a impressão de continuidade porque passam 24 quadros por segundo.
No começo do cinema, por economia, tentou-se usar durante algum tempo 18 quadros por segundo. A imagem ficava pulando. Você percebia que ela saltava de um momento para outro. Com 18 quadros por segundo, o cérebro ainda consegue perceber o salto entre uma imagem e outra.
Mas, com 24 quadros por segundo, essa sensação desaparece. Você olha para a tela e vê o movimento contínuo. Na realidade, porém, não há continuidade: há um quadro, depois outro quadro um pouco diferente, depois outro, depois outro.
Trazendo isso para nós, aqui e agora: o que está acontecendo neste momento é que vocês estão percebendo um momento de consciência sucedido por outro, numa velocidade muito rápida. Por isso temos a sensação de que o tempo passa e de que esta palestra está acontecendo.
Na realidade, ela só é viabilizada por essa sucessão de momentos de consciência. Se tomássemos um único momento de consciência isoladamente, ele seria estacionário. Não haveria tempo, nem sensação de continuidade.
Mas há outra decorrência importante: você tem a sensação de que existe porque os momentos de consciência estão ligados pela memória.
Se olhássemos apenas um fotograma de um filme, veríamos só a foto daquele momento. Se vocês vissem apenas este momento, estacionados nele, não teriam nenhuma sensação de continuidade, de movimento, nem de que vocês existem.
Para ter a noção de existência, você precisa ligar um quadro ao outro, um momento de consciência ao outro, por meio da memória.
Por isso, uma pessoa com amnésia acorda no hospital e, se perguntamos:
— Quem é você?
Se ela tem uma amnésia completa, responde:
— Não sei.
Ela não sabe quem é, não sabe seu nome, não sabe de onde vem, não sabe sua história de vida, não sabe nada.
Por quê?
Porque, para saber quem você é, você depende da sua memória.
Você é memória.
Certa vez, uma pessoa, em entrevista comigo, contou um acontecimento traumático. Eu expliquei que a única maneira de se livrar verdadeiramente de um acontecimento traumático é perdoar completamente, esquecer completamente aquelas emoções.
É difícil, é verdade. Não basta dizer:
— Ah, esqueça esse momento traumático.
A pessoa não vai esquecer só porque alguém disse isso. Ela poderia se queixar:
— O senhor não me dá uma solução.
Mas eu não tenho uma borracha capaz de apagar um acontecimento traumático do passado.
O que posso dizer é que você precisa olhar para ele de outra forma, o suficiente para que ele perca sua força. Se você continuar com ele presente em todos os momentos da sua vida, ele continuará assombrando você.
Então, os acontecimentos traumáticos do passado precisam ser relegados à vida de outra
pessoa: aquela que você foi no passado.
Foi uma pessoa no passado que sofreu aquele acontecimento traumático. Ou foi uma pessoa no passado que fez algo de que hoje você se arrepende.
Mas aquela pessoa não é você de hoje.
Isso é que é relevante.
O meu “eu” de ontem não é o meu “eu” de hoje, porque o “eu” está continuamente sendo alterado. E ele é constituído pelo quê? Pelas memórias. São elas que ligam todos os momentos de consciência.
Se conseguíssemos, por mágica, lidar com a memória e apagar completamente um acontecimento do passado, ele não nos assombraria mais. Nem com culpa, nem com remorso, nem com alegria, nem com nada.
Ele desapareceria completamente.
Vi o relato de uma aluna que estava saindo da casa da sua infância e levando sua mãe doente para outra cidade. Aquela era a casa da adolescência dela, cheia de memórias.
Ela se sentia arrasada, porque estava deixando para trás parte das suas memórias do passado.
Mas a mãe dela, velhinha, estava indo para outro lugar e estava contente. Estava alegre.
A aluna dizia:
— Ela está contente, e eu estou arrasada.
Eu respondi:
— Pense: você está ligada à memória. Ela está ligada à esperança, à visualização do futuro, ao lugar para onde vai. Por isso ela está alegre. Você está presa ao passado.
Quando eu disse àquela outra pessoa que ela precisava deixar o passado para trás, ela pensou:
— Ah, ele está me propondo uma coisa muito simples.
Mas, na realidade, é algo muito trabalhoso.
E é esse treinamento que pedimos ao aluno no sesshin:
— Sente lá e não viaje.
Tudo o que vier à sua mente, deixe ir embora.
Se você deixar ir embora, deixar ir embora, deixar ir embora, haverá um momento em que sua mente, de repente, fica límpida. Limpou.
E, se ela estiver límpida e vazia, então tudo ficou resolvido.
Foi isso que aconteceu com Buddha. Ele se iluminou e rompeu o liame da memória que o ligava a todas as coisas. Conseguiu se livrar daquele “eu” que o enganara por tanto tempo.
De repente, estava verdadeiramente livre.
Por isso ele disse:
— Meu eu, tu não me enganarás mais.
Porque esse “eu”, produto da memória, ligando meus momentos de consciência e minhas recordações, é justamente aquilo que me assombra, com todos os sentimentos ligados ao passado.
Daquele momento em diante, ele podia ser Buddha.
Buddha é aquele que acordou. “Buddha” quer dizer “o desperto”, “aquele que acordou”.
Não é um nome; é um título.
Na verdade, ele era Siddhartha Gautama, Shakyamuni. Quando dizemos “Buddha”,
dizemos “o acordado”.
Por isso, todas as pessoas podem ser Buddhas. Todas as pessoas podem acordar, podem despertar.
Porque qual é a condição essencial para acordar das ilusões, dos sofrimentos, da ilusão do eu, de todas as memórias que carregamos como correntes?
A condição essencial para acordar é estar dormindo.
Todo aquele que está dormindo pode acordar.
Portanto, todos que estão aqui são pessoas que podem acordar.
Estão dormindo? Sonhando? Carregando ilusões e memórias?
Muito bem.
Simplesmente, se você acordar, todas essas correntes serão abandonadas de um momento para outro.
A iluminação, ou o despertar, é um fenômeno instantâneo, muitas vezes inesperado.
Você não espera que aconteça, e ele acontece de repente.
E, quando acontece, você tem aquela experiência iluminada. É um momento extremamente feliz.
No início, temos pequenas e fugazes experiências iluminadas, que logo se vão.
O despertar de um Buddha é um despertar completo, perfeito e universal. Diz-se anuttara samyak sambodhi — despertar perfeito e universal. Abrange todas as coisas e permanece todo o tempo. Ele está acordado todo o tempo.
Nós, na nossa prática, podemos ambicionar acordar em momentos fugazes e rápidos.
Mas eles não são desprezíveis. São maravilhosos.
O que precisamos é ampliá-los em frequência e duração.
À medida que progredimos na prática, a frequência aumenta e a duração aumenta.
Não é necessário ficar em zazen de tal forma que a experiência seja perfeita o tempo todo. Se você fica 40% do tempo sentado com a mente esvaziada, já está próximo do despertar.
Porque seu cérebro continuará funcionando.
Algumas pessoas que não entendem meditação dizem:
— Mostre-me uma pessoa sentada com a mente vazia e eu lhe mostrarei uma pessoa morta.
Isso simplesmente mostra que elas não sabem do que estão falando. Não têm a verdadeira experiência.
Outros dizem:
— Assim como o intestino trabalha, a mente também trabalha sem parar.
Não é verdade.
A mente também pode repousar. Ela tem essa qualidade.
E a única maneira de vermos a realidade tal como ela é, consiste em abandonar
completamente os óculos de interpretação sobre ela.
O que fazemos quando sentamos para meditar?
Tentamos interpretar, entender, raciocinar, lembrar alguma coisa, solucionar um problema.
Tudo isso é inútil.
Você só precisa sentar e não fazer nada.
Isso é shikantaza, a técnica do zazen: apenas sentar. Não fazer nada.
Na realidade, é difícil.
Mas é a técnica que realmente funciona.
Nós discutimos muito tempo o que é consciência. E, já nos primeiros séculos depois de Cristo, Asanga e Vasubandhu desenvolveram a escola Yogacara, com análises sobre os tipos de consciência, e fizeram a proposta da existência de uma oitava consciência chamada ālaya-vijñāna.
Essa consciência seria o depósito da consciência universal.
Ālaya quer dizer depósito. Vijñāna quer dizer consciência.
O depósito de consciência universal seria o fato de que o universo inteiro tem o registro de absolutamente tudo. Nada está perdido, porque nem a energia pode ser destruída.
Nós pensávamos que havia vácuo no espaço. Mas, já na primeira metade do século XX, essas ideias foram colocadas em dúvida.
Paul Dirac fez isso por volta de 1929, propondo a existência do vácuo quântico.
Todo o espaço estaria preenchido por pequenas partículas surgindo e desaparecendo, com potencial para o surgimento de tudo. As partículas estariam integradas por uma força imensa, a energia do ponto zero, ou força de
Casimir, assim batizada por causa de Hendrik Casimir que a previu em 1948, que as unificaria, fazendo com que uma fosse dependente da outra, e todas estivessem interconectadas.
A proposta é impressionantemente semelhante à existência de uma consciência universal formada por partículas interdependentes, como na imagem da Rede de Indra: a rede da criação, na qual cada intersecção possui uma pequena joia que reflete todas as outras.
Essa rede de interação de tudo, unida por uma força, parecia fantástica quando surgiram as primeiras propostas vindas da física quântica.
Eu sei que foi há 78 anos porque é o ano do meu nascimento; então fica fácil calcular.
É muito interessante que estejamos falando de coisas já comprovadas e descobertas, mas ainda desconhecidas pela maioria de nós. Lidamos sempre com a física newtoniana, que é suficiente para construirmos o nosso mundo: colunas, travessas, telhados, deslocamentos.
Até as interações do tempo com tudo nos parecem óbvias. O tempo parece linear, como uma flecha: passado, presente e futuro, deslocando-se continuamente.
Fica muito difícil compreendermos que espaço e tempo, na realidade, são um conjunto interligado. Se você anda muito rápido no espaço, o tempo encolhe. Se você anda na velocidade limite, a velocidade da luz, o tempo simplesmente para. Não existe mais tempo.
Essas constatações, que vêm do início do século XX, parecem inúteis na nossa vida diária. No entanto, mudam toda a nossa concepção do que é consciência e tempo.
Eu estava explicando que, para nós, seres humanos, se você perde a consciência da sua presença aqui e agora — como acontece com qualquer pessoa anestesiada ou que desmaia —, o tempo que transcorre entre a perda da consciência e a retomada da consciência é exatamente igual a zero.
Em agosto, fiz uma cirurgia que durou três horas. Mas, para mim, entre o momento em que a anestesia fez efeito e o momento em que acordei, não passou tempo algum.
Simplesmente fechei os olhos e acordei. Tudo já havia passado.
Todos que tiveram essa experiência relatam a mesma sensação.
Então, quando as pessoas perguntam o que sucede com a morte, podemos dizer: há muitas experiências de outras dimensões que não podemos conhecer aqui e agora.
As dimensões da realidade são muitas.
E, quando compreendemos essa presença de energia infinita em partículas preenchendo todo o espaço, da qual surgem as coisas, podemos entender o conceito de dharmakaya.
Dharmakaya, no budismo, é exatamente isso: esse campo de força dentro do qual todas as coisas são manifestáveis.
Vocês recitam isso nas refeições:
— O manifesto, o completo Sambhogakaya Buddha; o manifesto Nirmanakaya; o
Dharmakaya…
Na realidade, é sobre isso que estamos falando.
Estamos falando de uma concepção extremamente profunda do universo, e que existe há milhares de anos dentro do budismo e que só agora, em termos científicos, começamos a explorar.
E essa questão do tempo é extremamente importante para nós.
O que eu queria que vocês mantivessem em mente é o seguinte: no momento em que perderem a consciência e morrerem, vocês poderão acessar outras dimensões da realidade.
Mas, se não acessassem, o que aconteceria?
Entre um momento de consciência e o próximo, não há tempo.
Desaparece sua consciência de agora. Quando você retomar a consciência, não houve tempo.
Então não existe um “não tempo” entre uma coisa e outra. Não existe um vazio, mas uma continuidade de manifestação absoluta.
Você salta de uma manifestação para outra, assim como um elétron salta dentro do átomo, de uma órbita para outra, sem que haja uma trajetória mensurável entre um momento e outro.
É simplesmente um salto. Isso se chama tunelamento quântico.
A mesma coisa acontece conosco.
Nós só vivemos momentos de consciência — nesta existência ou em qualquer outra.
Portanto, se compreendemos isso, compreendemos a possibilidade de outras dimensões da realidade, mais profundas do que esta realidade que enxergamos, e se compreendemos que só existe tempo quando há consciência, então, para nós, essa impressão de tempo não existe quando saltamos de uma manifestação para outra.
Espero que não tenha ficado complicado demais.
Texto de Genshō Rōshi 玄祥. Abade do Templo Daissenji.
Escola Soto Zen.
