Entre a Leitura e o Encontro: A Correnteza Zen

Decidi começar o ano lendo A Correnteza Zen, dos queridos Monges.
Existe algo profundamente especial em mergulhar nas palavras de pessoas que conhecemos não apenas pela fala, mas pela presença. Pessoas dequem já observamos os gestos, os silêncios, a maneira de caminhar, de olhar
e de habitar o mundo. A leitura ganha outra dimensão quando reconhecemos, por trás de cada frase, a essência de quem escreve.
Conheço o Monge Muryo e a Monja Kakuji há relativamente pouco tempo, mas alguns encontros parecem escapar da lógica do tempo. O sentimento que tenho é de familiaridade, como se, de alguma forma, suas presenças já
fossem antigas dentro de mim. Talvez porque existam pessoas que chegam silenciosamente, mas ocupam um lugar profundo quase imediatamente. Ou talvez, porque compartilhar o mesmo mestre e os mesmos ensinamentos
crie uma espécie de reconhecimento silencioso entre as pessoas. Uma conexão difícil de explicar racionalmente, mas fácil de sentir. Como se o caminho percorrido sob a mesma orientação aproximasse os corações de maneira natural, despertando uma familiaridade que vai além do tempo de convivência.
Quando a narrativa vinha da Monja Kakuji, eu escutava claramente a sua voz, seu jeito de falar, sempre sorrindo, os trejeitos animados que lhe são tão próprios. Quando era o Monge Muryo, a voz que surgia era firme e serena,
como quem fala a partir de uma verdade profunda.
Em alguns momentos, essas vozes se misturavam, e eu os escutava quase como se estivessem falando juntos.
É impressionante como os dois parecem estar sempre conectados, inclusive em decisões tão sérias quanto a de passar anos em peregrinação. Há uma sintonia silenciosa ali, que atravessa o texto. Quando eles falam de Plum Village, fui imediatamente transportada para lá.
Já estive em Plum Village, porém foi na França, e os ensinamentos, assim como a forma de vivê-los, são exatamente como descrevem. Os monges vietnamitas são doces, calmos, genuinamente felizes. Ao ler, senti novamente
as mesmas sensações de quando participava das palestras, dos ensinamentos sobre a compaixão, sobre a mente compassiva, das caminhadas ao entardecer para ver o pôr do sol. O sino que tocava de hora em hora e, imediatamente, ficávamos em silencio e voltávamos para o momento presente. Todos os dias fazíamos a caminhada da atenção plena. E quando o Monge Muryo descreve os monges caminhando, tocando as flores, observando a paisagem, eu consegui sentir tudo outra vez. Lembrei, então, do dia mais especial que vivi em Plum Village: a caminhada com o mestre Thich Nhat Hanh. Sentamos sob uma grande árvore e ouvimos seus ensinamentos. As crianças sempre ficavam à frente, em volta do Mestre.
Naquele dia, escolhi sentar logo atrás delas, apenas para estar o mais perto possível, para sentir sua presença.
A passagem que mais me surpreendeu, e talvez a que mais despertou minha curiosidade, foi a narrativa sobre a Índia, onde eles viveram durante um ano.
Fiquei profundamente impactada com os relatos sobre a chamada “cidade da morte”. Precisei interromper a leitura para procurar vídeos, imagens, templos, qualquer coisa que me aproximasse daquela realidade. Eu precisava ver com
meus próprios olhos aquilo que eles descreviam.
Percebi o quanto nós, ocidentais, temos dificuldade em lidar com a morte.
Para nós, ela quase sempre vem acompanhada de sofrimento, medo e apego. Existe uma tentativa constante de afastá-la, escondê-la, silenciá-la.
Talvez por isso aquele relato tenha me atravessado tanto. Era como olhar para algo que evitamos a vida inteira.
Também procurei imagens dos templos, das ruas, das cerimônias. Queria construir uma imagem viva dentro de mim, sentir o ambiente para além das palavras. E, de alguma forma, consegui.
Quando eles contam sobre o escorpião, precisei respirar fundo. Que coragem. Se eu sei que existe uma barata no quarto, provavelmente já perderia o sono; imaginar um escorpião tão próximo me parece quase impossível. Mas o que mais me impressionou não foi exatamente o perigo, foi o desapego.
O desapego ao conforto.
Ao aconchego de uma casa.
Ao sono.
À fome.
Ao banho quente.
Talvez porque, no fundo, sejam justamente essas as coisas às quais mais nos agarramos. Pequenos confortos que sustentam a sensação de controle sobre a vida. Ler sobre alguém abrindo mão disso voluntariamente provoca um
impacto difícil de explicar.
E são tantas histórias, tantas experiências intensas, que o livro nos envolve de uma maneira rara. É difícil soltá-lo, porque a curiosidade sobre o que ainda está por vir se torna maior do que a vontade de parar. Cada capítulo
parece abrir uma nova porta.
Sobre a prática, como budista, sinto que consigo ter ao menos uma pequena dimensão do que eles viveram e do que chamamos de verdadeira prática.
Claro que, no meu caso, sou leiga. Eles decidiram tornar-se monges. Ainda assim, ao longo dos anos, convivendo com monges e também com uma postulante à monja, pude perceber um pouco da profundidade dessa escolha.
Há dezenove anos convivo com monges. No início, era apenas o Monge Genshô. Hoje vejo a Sangha crescer, outros monges surgirem, novos praticantes chegando. E é impossível não sentir algo profundo ao observar isso. Muitas pessoas passaram por esse caminho nesses anos; muitas chegaram, muitas partiram. Mas reconheci imediatamente, ao conhecer esses dois monges e ainda mais ao ler o livro, que eles são pessoas especiais. Pessoas que realmente foram tocadas por algo maior, algo que talvez não caiba completamente em palavras.
Lendo suas histórias, suas buscas, seus atravessamentos, sinto que o Zen nos envolve de uma maneira silenciosa e definitiva. Os ensinamentos passam a acompanhar cada passo, cada escolha, cada forma de olhar para a vida. E
talvez uma das coisas mais belas do Zen seja justamente o fato de não exigir uma fé cega. É um caminho construído sobre experiência, investigação e questionamento. Siddhartha dizia para experimentarmos por nós mesmos.
Nosso mestre, Monge Genshô, sempre repetiu:
“Não acreditem em mim. Testem.”
E eles testaram.
Se arriscaram.
Se lançaram no desconhecido, venceram o desconforto.
Entregaram-se verdadeiramente à busca.
O encontro deles com o mestre é algo profundamente especial. Temos o mesmo professor, ainda que cada um percorra caminhos diferentes a partir do mesmo ensinamento. Percebo que cada pessoa recebe esses ensinamentos conforme sua história, suas crenças, suas dores e sua forma de viver. O ensinamento é o mesmo, mas floresce de maneiras diferentes em cada coração.
Eles sentiram essa conexão porque estavam receptivos ao caminho. Estavam dispostos a atravessar o precipício interior que a prática exige. Encontrar um mestre verdadeiro talvez seja justamente isso: permitir-se dar um passo além da mente racional. Não se trata de idolatria ou cegueira, mas de uma conexão difícil de explicar, mente com mente, coração com coração.
Existe um ensinamento que acontece para além das palavras.
Além dos livros.
Além das explicações.
E encontrar um verdadeiro mestre é um dos maiores privilégios da vida.
Ao ler A Correnteza Zen, sinto que o Monge Muryo e a Monja Kakuji viveram profundamente essa experiência, talvez de uma forma que minha própria mente ainda não seja capaz de compreender por inteiro.

Texto de Jaqueline Kashin. Praticante na Comunidade Zen-Budista
Daissen. Escola Soto Zen

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