No Zen, sendo estimulado a conhecer e respeitar outras escolas budistas

“Poucos são os homens que pedem a verdade, menor número ainda
ousa estudar a verdade, e ainda mais insignificante é o total
dos que ousam segui-la em todas as suas práticas.”
Swami Vivekananda
Em @mundoespiritual_oficial

 

Ao final de 2021, fiz contato com a sangha Zen-budista Daissen. Queria pedir orientações sobre meditação e fui instruído a passar a frequentar as sessões virtuais de meditação como forma de iniciar a prática e começar os estudos sobre o Dharma. Além da orientação espiritual, a comunidade Daissen também oferece cursos para os seus alunos e colaboradores. Por conta disso, matriculei-me no segundo módulo do CED, o Curso sobre Ensinamentos do Dharma, com início no segundo semestre de 2024.

Numa das disciplinas do curso, tive como tarefa, que pesquisar sobre outra escola budista, de maneira a escrever um texto sobre as minhas “descobertas”, ou seja, refletir sobre as diferenças que fossem mais relevantes. Essa tarefa revelou-se, então, como uma ótima oportunidade para conhecer outra linha do budismo, talvez o seu local de prática e, até mesmo, as pessoas que frequentam a sangha. Decidi fazer contato direto com as escolas que se encontram em endereços mais próximos da minha residência. É o caso de um casarão, no bairro das Laranjeiras, onde está estabelecida uma sangha tradicional do budismo tibetano, o Centro Shiwa Lha. Descobri que pertencem à escola Gelug do Budismo Tibetano, fundada no século XV pelo Lama Tsongkhapa, mais especificamente seguindo os
ensinamentos de Lama Yeshe e de Lama Thubten Zopa Rinpoche.

Fui recebido por Tenzin Kunsang (monja brasileira, fundadora da comunidade), que foi ordenada pelo Dalai Lama. O centro tibetano fica numa casa antiga e bela, com uma área ao fundo com um pequeno jardim (tem um bonsai nesse terreno, ao lado de uma imagem de Buddha) onde é possível a realização de práticas de meditação. A sala que serve de recepção e escritório é bastante confortável e acolhedora.

Em seu centro, destaca-se uma bonita estátua branca de Buddha; há muitos livros dispostos em prateleiras, bolsas e japamalas (juzus) que acredito que sejam para venda. Próximo à entrada fica uma mesa de escritório com cadeira, enquanto duas poltronas ficam perto das janelas que dão para a rua. No salão de meditação, contíguo à primeira sala, há cadeiras e almofadas para a prática, além de um lindo altar. Essas almofadas são mais baixas do que o zafu que utilizamos no Zen. Sentamo-nos nas poltronas que ficam ao lado das janelas, na frente da casa, no andar térreo. A monja abriu um notebook e conversamos acerca de diversos aspectos do budismo tibetano. Por fim, ela disponibilizou dois arquivos de texto (em inglês) com várias explicações sobre os votos e demais informações. A minha pequena pesquisa, que segue nos próximos parágrafos, foi norteada pelos votos monásticos e leigos, pelas diferenças estéticas (como vestimentas e templos) e por outros assuntos que despertaram o interesse.

Quanto aos votos monásticos, os votos Pratimoksha determinam as regras básicas da disciplina monástica. Desse modo, monges e monjas novatos tomam 36 votos. As sanghas masculina e feminina, quando totalmente ordenadas (bhikshus e bhikshunis), são dirigidas por 227 a 354 votos, dependendo da tradição e da escola. Essas regras estão contidas no Vinaya, que é o conjunto dos ensinamentos de Buddha sobre a disciplina monástica. Os votos do Bodhisattva: para essa linhagem, os votos de bodhisattva ou bodhichitta compreendem 18 votos raiz e 46 votos secundários. Esses votos foram compilados na tradição tibetana a partir de vários textos autorizados. São dados em vários contextos da prática budista Mahayana para auxiliar, orientar e treinar o praticante no comportamento de um bodhisattva.

Votos Tântricos: Tantrayana, também chamada de Vajrayana, é uma escola do budismo tibetano. Iniciações tântricas são dadas por professores qualificados em quatro níveis diferentes: tantra de ação, tantra de performance, tantra de yoga e tantra de yoga mais elevado. Os votos tântricos são dados apenas para praticantes mais experientes, com iniciações de tantra de yoga mais elevado. Sobre os votos leigos, a pessoa pode pedir a cerimônia de refúgio a um professor qualificado. Nessa cerimônia, o praticante se refugia nas chamadas Três Joias: o Buddha, o Dharma e a Sangha. A partir desse momento, o praticante pode ser considerado dentro da comunidade como um budista. Durante a cerimônia de refúgio, é instruído a tomar todos os cinco preceitos (vide o parágrafo seguinte para a explicação sobre esses cinco e mais três preceitos “adicionais”), nenhum deles ou uma combinação dos cinco.

Praticantes leigos, tanto homens quanto mulheres, que escolhem tomar todos os cinco preceitos são chamados, respectivamente, de upasaka e upasika. Então, os cinco votos a serem mantidos por um upasaka ou uma upasika são evitar: 1. Matar; 2. Pegar o que não lhe foi dado; 3. Má conduta sexual; 4. Contar mentiras; 5. Beber álcool. Os oito preceitos Mahayana (ou seja, os cinco anteriores e mais três adicionais): em dias sagrados especiais, durante retiros e em outros momentos sugeridos pelo professor, um praticante pode escolher tomar os oito preceitos Mahayana. Tais votos são tomados por um período de vinte e quatro horas, tendo a opção de tomá-los novamente no dia seguinte. Assim, esses preceitos incluem os cinco preceitos leigosanteriores e mais três: 1. Abster-se de comer em horários inapropriados; 2. Abster-se de entretenimentos como dança, canto e música, bem como abster-se do uso de perfumes, ornamentos e outros itens usados ​​para a beleza pessoal; 3. Abster-se de usar camas altas ou luxuosas (pois na Sangha original todos dormiam no chão). Observação: ao tomar os oito preceitos Mahayana, o preceito de má conduta sexual passa a ser um voto de abster-se de qualquer atividade sexual.

Sobre as diferenças estéticas, as vestimentas do budismo tibetano utilizam cores mais vivas, como o laranja (ou um tom um pouco mais escuro, próximo ao vermelho-alaranjado) e o vinho claro, principalmente. As vestimentas são:
Dhonka – colete
Shemdap – saia
Zhen – xale
Chogyu – xale cerimonial
Dogu – assento

Esteticamente, em relação ao Zen, o budismo tibetano é mais colorido e mais detalhado em termos ornamentais. O ambiente possui mais imagens, cores, detalhes estéticos e ornamentos, contendo vários estímulos para os sentidos. No salão de meditação, o altar tem objetos diversos: fotografias de lamas importantes (inclusive o Dalai Lama), pequenas estátuas de Buddha, vasos de flores, uma bela mandala dentro de um mostruário (que deve ser circundado pelos integrantes da sangha).

Compondo com o interior da casa, a parte externa do terreno é ornamentada com diversas bandeirolas coloridas que enfeitam o espaço local. Já o ambiente Zen é mais minimalista, simples e sóbrio, sem excessos; tem menos distrações visuais. Contudo, apesar das diferenças, a beleza está presente nos dois ambientes. Por outro lado, vejo o budismo tibetano como sendo mais devocional e ritualístico; o Zen, especialmente o praticado na linhagem de Monge Genshō, mais objetivo e pragmático.

Para ilustrar, usando o exemplo da minha visita, na sala que serve de recepção, em cima de um móvel para colocar os calçados, há uma estatueta de Buddha envolvida por um pequeno espelho d’água dentro de um recipiente. E, dentro do recipiente, há uma pequena concha, com cabo, utilizada para molhar essa imagem pela cabeça. Ao fazer isso, supostamente a pessoa atrai bons auspícios e prosperidade para si. Reza a história que Buddha escapou de uma rocha que rolou em sua direção. No entanto, um dos discípulos foi atingido exatamente na cabeça e O Desperto, ao verter um pouco de água sobre o ferimento desse monge, conseguiu curá-lo imediatamente. Então, aproveitei a ocasião e pedi para molhar a cabeça da estátua com a concha. A monja consentiu.

Assim, graças à tarefa que me foi pedida no curso oferecido pela comunidade Zen à qual pertenço, percebi que existem muitas opções de caminho espiritual dentro do budismo. Acredito que, para cada pessoa, dependendo do seu temperamento, determinada escola do budismo será de maior interesse, mais próxima ou “adequada”. Porém, apesar das particularidades e diferenças pontuais existentes entre as diversas escolas, é fácil perceber que houve um esforço diligente dos sucessores da Sangha original com o intuito de manter a essência dos ensinamentos de Buddha quase intocada e muito viva, desde os primeiros séculos até os dias de hoje.

Texto de João Luiz Selasco. Praticante na Comunidade Zen-Budista Daissen. Escola Soto Zen

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