Do caos urbano ao silêncio do zazen: Entrevista com Monge Koei – Parte I

Koei Oshō é o atual abade – com Shinsanshiki agendado para Outubro de 2026 – do Templo Tentokuzan Jojo-ji, localizado na cidade de Izumo, província de Shimane. Trata-se de um templo Zen da escola Soto e é o 18o templo da Rota de Peregrinação de Kandō.

Embora more no Japão há mais de 10 anos, Koei Oshō é brasileiro, nascido em São Paulo, mas encontrou o Zen-budismo quando já morava no Japão.

Conheça sua história.

Entrevistadores: Monge Muryo e Monja Kakuji

Monge Muryo:
Koei Oshō, queríamos começar falando de uma coisa muito inusitada… a sua época do punk. Como é que um membro de uma banda punk de São Paulo se torna um monge budista? 

Monge Koei:
(risos) Sabiam que tem toda uma transição interessante nessa história?! Isso porque entre o punk e o monge aconteceram muitas coisas no meio que foram muito importantes também. Recentemente, pensando sobre isso, percebi que tudo começou foi mesmo na minha infância.

Eu nasci no bairro de Bela Vista, em São Paulo. Morávamos em um prédio bem pequeno, uma kitnet de 27 m2. Éramos em quatro pessoas: eu, minha mãe, minha tia e minha prima.

E essa região era ocupada por muitas tribos juntas. Havia o pessoal do samba, da escola de samba Vai-Vai, e tinha também uma boca de fumo, fora as crianças em situação de rua. E, naquela época, começávamos a frequentar a escola somente na sétima série, então era muito tempo ocioso. Antes mesmo de começar a frequentar escola, calculo que eu já tinha presenciado uns três assassinatos.

Monja Kakuji:
Que coisa…

Monge Koei:
Vivíamos uma explosão de coisas todos os dias. De vez em quando, minha mãe me levava junto quando ia trabalhar. Certa vez, na volta, descemos do ônibus e, de repente, começou um tiroteio. Nos escondemos atrás de um pilar e, lá, eu e minha mãe, ficamos abaixados. Pouco depois, passou um homem correndo, fugindo, e logo atrás vinha a polícia.

Sinto minha vida no Dharma começando assim.

Em outra ocasião, mataram um homem na rua da Vai-Vai. Havia feira no local, e deixaram o corpo pendurado no palco da escola de samba. No dia seguinte, a feira aconteceu normalmente, com todo mundo fazendo compras, e o corpo ainda estava lá.

Mas, apesar de tudo isso, essas coisas nunca me impactaram tanto a ponto de me paralisar.

Quando eu tinha por volta de uns dez anos e estava andando com a minha mãe na Avenida Paulista – mais precisamente na Avenida Brigadeiro –, passou uma caminhonete velha, preta, barulhenta, fazendo aquele ruído metálico. E já perguntei à minha mãe o que era aquilo

Ela respondeu: “É o IML.” E explicou: “É para onde levam os cadáveres, onde cuidam dos corpos.”

Aquilo me impactou muito. E eu disse: “Eu quero trabalhar com isso!”

Aquilo ficou na minha cabeça.

Lembro também que, quando eu estava no interior, ficava olhando revistas com fotos de pessoas mortas. Depois começaram a aparecer revistas como Death, Gore e outras do tipo. O pessoal brincava comigo:

“Você fica vendo essas fotos, mas, do jeito que é, se visse um morto na sua frente, ia desmaiar.” [risos]

Depois, quando eu tinha 12 anos, essa prima que morava comigo começou a namorar um punk. Nessa época, todo mundo lá em casa gostava de rock: minha mãe, minha tia, minha prima… Era rock e Vai-Vai. Não tinha outra coisa para fazer.

Essa minha prima começou a namorar esse rapaz e, certa vez, eu estava andando pela região da 14 Bis quando vi uma galera punk circulando por ali. Aquela estética toda, aquele jeito de ser… foi mais ou menos como quando vi o “rabecão” – que eram os furgões do IML – pela primeira vez. Aquilo me chamou muito a atenção. Olhei e pensei: “Eu não sei o que é isso, mas eu quero isso para mim.”

Conversei com a minha prima, conheci o namorado dela, e ele me deu uma camisa dos Sex Pistols – eu nem sabia quem eram os Sex Pistols – e um CD chamado Grito Suburbano.

Monja Kakuji:
Grito Suburbano?

Monge Koei:
É. Uma das primeiras coletâneas punk de São Paulo. Ouvi aquilo e pensei: “É isso!”

Lembro que fui falar com a minha mãe e disse: “Eu quero um coturno.”

Ela perguntou: “Pra quê?”

E eu respondi: “Quero um coturno.”

Na camisa dos Sex Pistols, escrevi com spray: “Punk até a morte”, essas coisas. E comecei a ser aquele punk, bem improvisado mesmo, como a gente costumava dizer na época.

Segui nessa fase até os 13, 14 anos. Depois chegou o ensino médio. Lá conheci um amigo que também era punk. Só que eles já estavam alguns níveis acima de mim – muito mais envolvido.

Esse primeiro namorado da minha prima fazia parte de uma gangue punk chamada Devastação Punk – essa gangue existe até hoje. Eles eram punks de outro perfil: gostavam mais de briga, mais da rua mesmo.

Foi esse grupo que conheci primeiro. Depois, quando conheci esse meu amigo na escola – o nome dele é Pedro, e tenho contato com ele até hoje –, ele já estava mais envolvido com política e manifestações. Hoje em dia, o Pedro está ligado ao taoismo, mas continua punk, inclusive.

Eu sempre tive dentro de mim essa vontade de mudar o mundo. E o Devastação Punk era diferente nesse sentido: mais impulsivo, mais voltado para o confronto direto.

Esse Pedro começou a me mostrar outras coisas. Eles faziam zines, produziam material artesanalmente, escreviam, distribuíam. Comecei a andar com ele. Havia também uma outra punk na escola, da turma dele, que era sua namorada. Eram três; comigo, quatro. E acabamos nos tornando amigos.

Na verdade, começamos meio em clima de confronto. Porque ele me viu andando com camiseta dos Ramones e veio me questionar:

“Que história é essa? Você é punk? Punk de onde? Punk como?”

Havia toda aquela cobrança. Mas, no fim, isso acabou se transformando em amizade.

Tínhamos um professor de História já mais velho. Nosso professor havia sido anarco-punk nos anos 1980. Ele explicava sobre punk rock, hardcore, crust, noise, noise core.

Esse professor nos deu um vinil. Ele era tão radical que boicotava CD, porque considerava o CD produto da indústria. A banda dele gravava apenas em vinil. E escrevia no rótulo algo como: “Se você encontrar isso à venda, roube. Isso aqui não é para ser vendido.”

Ele nos deu esse disco, e aquilo mudou a nossa vida. Gostamos daquilo e dissemos: “Vamos montar uma banda.”

Havia um amigo do Pedro, do bairro dele. Nós três nos juntamos e formamos a banda. No começo, tentávamos fazer esse noise core, embora ainda não tivéssemos muita referência ou influência. Conhecíamos mais punk rock e hardcore.

Com o tempo, isso foi mudando.

E há uma coisa que vocês talvez já tenham percebido: quando me interesso por alguma coisa, eu vou fundo. Com o punk aconteceu a mesma coisa. Comecei a mergulhar nesse universo. Nunca fui muito de estudar, no sentido convencional. O pessoal dizia: “Você tem que ler Bakunin, tem que ler Malatesta.” Aquilo me dava sono.

Sempre fui – e ainda sou – mais de ir direto à experiência. Então comecei a me dedicar mais aos demotapes punk.

Quando menos esperávamos, aquele moleque que era apenas um punk meio improvisado já estava com visual extremo: moicano triplo, jaqueta cheia de couro, rebites, patches… Eu conhecia todo mundo, andava com todo mundo e circulava por todas as cenas.

Aquela primeira turma, o pessoal do Devastação Punk, começou a entrar em conflito com essa nova galera com quem eu passei a andar. O grupo em que realmente entrei depois era o Anarco Punk, como a gente chamava.

Começaram os confrontos entre esses grupos. Um dia eu estava andando pelo bairro – porque o Devastação era todo formado por gente da região onde eu morava – e esse clima tenso era constante. Você andava na rua e sentia aquele peso no ar; sempre com a possibilidade de conflito.

O anarco-punk, no entanto, já não tinha tanto esse impulso de sair procurando briga como outros grupos. A gente não andava por aí atrás de confronto. Mas, se acontecesse, acontecia. Já os outros saíam para isso mesmo, preparados, com bandagem nas mãos.

Quando se olha de perto, o punk era algo muito radical. Nós mesmos nos proibíamos de ter dinheiro. Não aceitávamos trabalhar. A ideia era viver do que chamávamos de mangueio, ou seja, andar por aí pedindo comida.

Isso lembra alguma coisa, não é? [risos]

Monja Kakuji:

Verdade, já havia uma experiência de takuhatsu embrionária!

Monge Koei:

Também fazíamos malabarismo no farol, essas coisas. E havia um limite: só se podia pegar o básico. Não lembro exatamente, mas era muito pouco, menos de dez reais. Na verdade, nem se buscava dinheiro. O que se pedia era o goró, a comida do dia. Só isso.

No ônibus, era preciso pedir para passar por baixo da catraca. Não se podia pagar. E então começamos a morar em casas abandonadas. Isso se chamava squat, ou seja, ocupar imóveis abandonados – ocupar e resistir; quando a polícia aparecesse depois.

Todo mundo era vegetariano, vegano, essas coisas. No fim da feira, pegávamos o que os feirantes descartavam – verduras e outros alimentos – e fazíamos comida.

Fiquei vivendo assim até uns 20 anos, mais ou menos. Andando de um lado para outro, morando em casas abandonadas, vivendo em comunas. Algumas casas nem eram abandonadas, mas funcionavam como comunas. Alguns punks alugavam um lugar e para transformar em espaço coletivo.

Havia lugares em que se fazia comida comunitária com restos de feira. As pessoas comiam ali e ajudavam a manter o espaço. Produziam zines, escreviam, faziam material gráfico, música para as bandas.

Acabei percorrendo uma parte grande do Brasil apenas na base da carona, indo de punk em punk. Era como se eu tivesse passado por vários mosteiros. Circulava por diferentes cenas punk, várias comunas, sempre de carona, sem destino definido.

Lembro de uma época em que passei por sete casas diferentes com apenas dez reais no bolso. E fiquei mais de um ano vivendo assim, apenas andando.

Depois disso, tentei tirar carteira de motorista. Aos 18 anos, não pude, porque não tinha me alistado no Exército. Aos 19, fui me alistar.

No meu RG, eu aparecia com um moicano vermelho. Havia mais de duzentos rapazes no dia do alistamento. Só eu e mais três ficamos. Mas depois, por causa das tatuagens, acabei sendo dispensado.

E só então tirei a carteira de motorista. E é engraçado perceber como o sistema nos captura, não é? Você tira a carteira e quer dirigir. Para dirigir, precisa de dinheiro. Então fui trabalhar.

Mesmo assim, eu ainda tinha um amigo punk que se considerava eco-biker. Ele andava de bicicleta para não usar gasolina, para não alimentar o sistema. Conseguimos um trabalho de entregas de bicicleta.

Eu trabalhava nisso. Às vezes, entregava documentos para uma imobiliária.

As imobiliárias começaram a me chamar para trabalhar diretamente nelas. E aí a coisa foi mudando cada vez mais. Era aquele ambiente de “vestir a roupinha”, sabe? Já precisava usar roupa social, camisa, passar uma imagem certinha… conselho daqui, conselho dali. Foi tudo se descaracterizando.

Quando você começa a trabalhar assim, já não pode mais ficar andando por aí. Tem horário para cumprir, fica preso. Vem aquela sensação de enclausuramento.

Então deu um piripaque na minha cabeça. Comecei a querer entrar para a polícia, essas coisas. Não exatamente para a polícia, mas para áreas próximas: segurança pública, investigação e afins. Aquela ideia antiga começou a voltar.

Prestei concurso para não sei o quê, não deu certo. Fiz outro, também não. Fiz vários concursos nessa área, e nada acontecia. Então pensei: “Vou fazer uma faculdade de Direito. Depois que tiver o diploma, tento ser delegado ou perito de alguma coisa.”

Na época, meu maior objetivo era entrar no Ministério Público. Eu queria esse universo de investigação, necropsia, trabalhar com essas áreas.

Comecei a cursar Direito, mas aconteceu algo no meio do caminho e fui morar no Mato Grosso do Sul.

Lá, logo de início, comecei a trabalhar quase como voluntário em um projeto com adolescentes. Era algo parecido com Patrulha Mirim, iniciativas desse tipo.

Depois disso, consegui um trabalho de que gostava muito. Passava o dia no trânsito: motorista de ônibus. Só que ali já havia toda aquela exigência: barba feita, cabelo arrumado, tudo certinho.

Mas há uma parte importante dessa história que eu pulei. Antes de ir para o Mato Grosso do Sul, fui trabalhar como bombeiro civil. Isso veio dessa minha inquietação com segurança pública, já que eu não conseguia entrar oficialmente em nada nessa área.

Nessa época eu também havia entrado em uma banda gótica. O punk foi ficando para trás e se transformando em post-punk. O vocalista dessa banda comentou que haveria um curso de bombeiro civil.

Naquele período, eu trabalhava na imobiliária e meu amigo em uma empresa de cobrança, ligando para escolas para cobrar mensalidades. Nenhum dos dois tinha satisfação no trabalho. Fizemos o curso e passamos a trabalhar como bombeiros civis.

Foi um trabalho muito bom, inclusive. Estudávamos bastante e aprendíamos muita coisa na prática. Cheguei a atuar na brigada de incêndio do Tribunal Regional Federal. 

Nessa fase, aconteceram algumas situações marcantes. Socorremos muita gente. Houve casos de pessoas que caíram em fossas e outras situações bastante pesadas – isso vai fazer sentido mais adiante, por isso estou contando.

Monge Muryo: 

E em meio a tantas mudanças, qual espaço o movimento punk ocupava em sua vida?

Monge Koei:

Com o tempo, o punk foi ficando para trás. Agora, além de engomadinho, eu já estava praticamente de farda: coturno engraxado, uniforme impecável.

A música também foi mudando. Saí do hardcore e fui mais para o post-punk: Joy Division, The Cure, Sisters of Mercy. A banda em que entrei já existia havia algum tempo. Chamava-se Dead Rose Garden – Jardim de Rosas Mortas. Pelo que sei, essa banda toca até hoje.

Depois disso, fui para o Mato Grosso do Sul. No começo, entrei na ambulância.

Ali socorri gente de verdade, porque fui trabalhar em um lugar que estava construindo indústria pesada. Havia explosões de acetileno, acidentes de solda… era um ambiente duro.

Depois saí da ambulância e fui para o caminhão de incêndio. Combate a incêndio em área rural, incêndio em canavial – coisa pesada mesmo.

Mais tarde, voltei para a ambulância.

Nesse período, minha mãe se aposentou. Recebeu FGTS e outras verbas. Um dia ela me perguntou:

“Você quer fazer algum curso? Quer estudar alguma coisa?”

Na mesma hora respondi:

“Quero. Quero fazer curso para trabalhar com morto.”

Ela perguntou:

“Onde tem isso?”

Eu disse:

“Tem em Curitiba.”

Pesquisei, vi o valor, falei para ela. E ela respondeu:

“Então vai.”

Ela pagou o curso. Fui para Curitiba e fiz tanatopraxia e reconstrução facial.

Começou a parte teórica e depois chegou o dia da prática. Lembro bem desse dia. Eu estava ali, apreensivo, ouvindo aquelas conversas, sentindo aquele clima estranho. Então alguém disse:

“Chegou o morto. Bora.”

Desci para o necrotério, que ficava no subsolo. Abri a porta. O corpo estava todo amarelado. E, para mim, aquilo foi absolutamente normal. Olhei e pensei:

“Nasci para isso.”

Depois chegou a minha vez de fazer o procedimento. Era uma mulher japonesa que havia se jogado de um prédio. Eu fiz o trabalho e me formei.

Voltei para Dourados e comecei a trabalhar em uma funerária pequena, que estava começando. Fiquei lá cerca de seis meses. Depois, uma família japonesa, proprietária da maior funerária da cidade, me chamou para trabalhar.

E adivinhem o que funcionava dentro dessa funerária: o IML.

Em Dourados havia médico-legista e perito criminal, mas não existia local adequado nem auxiliares. Então quem fazia o trabalho de auxiliar de necropsia e auxiliar de perícia éramos nós, da funerária.

Era o trabalho normal de funerária – buscar corpos no hospital, na rua –, mas, quando havia homicídio, íamos para o local. Chegávamos junto com a polícia e aguardávamos o perito. O perito não tocava no corpo. Quem fazia todo o manejo do cadáver éramos nós.

O perito tirava fotos, fazia medições, e nós colocávamos o corpo no carro e o levávamos para a funerária. Depois vinha a família, e o médico-legista também não colocava a mão. Fazíamos tudo: abrir, preparar, fechar. Era rotina.

E ali, sem perceber, fui entendendo a impermanência. Foi ali que parei de dirigir bêbado, parei de querer arrumar briga, parei de agir com descuido em relação aos outros.

Fiquei quase cinco anos nesse trabalho. Eram, no mínimo, três mortos por dia.

Havia morte natural e morte violenta. O máximo que cheguei a fazer em um único dia foram onze corpos. Se você calcula isso ao longo de cinco anos, dá uma média de mais de três mil mortos que vi diante de mim, que passaram pelas minhas mãos.

E ali havia mortes de todo tipo que se possa imaginar. Tudo. Mortes banais: alguém que morre engasgado. Criança brincando no quintal, cai dentro de um balde e não consegue sair; quando os pais percebem, já morreu. Todo tipo de coisa.

As pessoas morrem o tempo todo. Morrem por qualquer motivo, em qualquer idade. Houve um caso de que me lembro até hoje: um garoto de 15 anos que infartou e morreu – quinze anos!

Amigos meus também morreram. Dois deles faleceram aos 27 anos, cada um com um tipo diferente de câncer. Todo mundo morre. Morre, morre, morre.

No começo, fiquei meio neurótico. Eu achava que tudo poderia me matar. Depois fui me acostumando. A morte foi se tornando algo normal. As pessoas morrem. É isso.

E havia também as cenas pesadas: acidente de ônibus, colisões, bobina de metal caindo sobre alguém. Trazíamos o corpo naquele caixotão de que falei. Colocávamos ali dentro, como se fosse um grande estojo sendo carregado.

Você vê aquilo e pensa: “a gente se imagina muito importante, que tem nome, que tem status. No fim, é só carne.

Então essa fase terminou. Depois de uns cinco anos ali, me deu vontade de ir para o Japão. E eu vim para o Japão.

Um homem que havia voltado do Japão me procurou para trabalhar. Era primo de um amigo meu. Ele chegava cheio de histórias, e me empolguei.

E então vim para o Japão.

Meu primeiro trabalho foi em fábrica. Gostei do Japão, mas pensei: “não, preciso arrumar um serviço de que eu goste.”

Fui trabalhar com caminhão, eu dirigia caminhão, mas ainda não falava japonês direito e fui contratado por uma empresa de transporte que empregava bastante gente marginalizada: ex-presidiários, pessoas que não conseguiam emprego convencional.

Entrei para trabalhar lá – e eles eram gente boa de verdade. Havia um senhor que me ensinou tudo. Fui o primeiro gaijin – como pejorativamente os japoneses chamam os estrangeiros – ali sem padrinho, sem referência. E ele me ajudou muito.

Até que meu hamster morreu. E por isso que eu fui parar em um templo

Foi interessante porque tive várias oportunidades de sair da cidade onde eu estava. Quando ainda trabalhava na fábrica, apareceu uma chance de ir para Tóquio. Eu já estava contratado, era só ir. Trabalho com caminhão, tudo certo.

No último segundo, não fui.

Surgiu também uma oportunidade de trabalhar em outro lugar, numa fábrica de navios. No último segundo, eu não fui. Alguma coisa me segurava aqui, nesta cidade.

Aí, uma semana antes de eu aceitar um novo trabalho e me mudar, meu hamster morre! Botei meu pé no templo. E pronto: acabou.

Liguei para o meu amigo que havia me chamado para um outro trabalho e disse:

“Olha, não vou mais. Agora encontrei um caminho aqui.”

No fim, no dia da minha ordenação, esse homem – que acabou se tornando uma figura paterna para mim – sentou no lugar do meu pai. A esposa dele sentou no lugar da minha mãe. Até hoje mantenho contato com eles. Gente muito boa.

Monja Kakuji:
Quando entrou no templo, lembra que tipo de pensamento veio à sua cabeça? Que sensação surgiu? O que fez o senhor decidir: “Vou continuar aqui”?

Monge Koei:
Antes de ir, eu estava com medo. Pensei: “Vou morrer de medo.” Porque eu pesquisei na internet um templo que fazia funeral de animais, e era um lugar no meio do nada, ruazinhas estreitas, não havia nada em volta. As fotos que eu tinha visto eram meio assustadoras.

Mas era à noite, e aquele era o único horário possível. Ligamos para o monge e ele disse:

“Pode vir agora.”

Então fomos.

Lembro que o que mais me tocou não foi nem o ritual em si, nem o kesa, mas foi o sino.. aquilo me tocou. Os gons no meio dos sutras. Ele ia recitando e de repente vinha um sino, gon! E o cheiro! O incenso. Ele conversou com a gente, falamos sobre o hamster. Saímos de lá calmos.

E o que ajudou a consolidar isso foi que sempre aparecia no YouTube uma entrevista da Monja Coen. Eu via aquele nome e imaginava que fosse uma monja estrangeira, algo como os irmãos Coen do cinema. Eu nunca tinha clicado. Nunca tinha parado para assistir.

Mas, naquele período, esse vídeo voltou a aparecer. Então pensei: “Vamos clicar nisso.”

No dia seguinte, trabalhei dirigindo o dia inteiro ouvindo os vídeos dela. Eram vídeos em que ela falava sobre depressão, sofrimento. E aquilo tocou algo que eu estava vivendo.

Então pensei: “Esse budismo é interessante.”

Naquela época, os vídeos eram curtos, vocês lembram? Começavam com um som de água, alguém fazia uma pergunta, e ela respondia.

Passei um dia inteiro dirigindo e ouvindo aqueles vídeos. No fim da tarde, falei em voz alta:

“Sou budista.”

Até um segundo antes disso, eu era um ateu militante, daqueles bem convictos. E disse para mim mesmo: “Sou budista e não quero nem saber.” Acho que sempre segui isso, só não sabia o nome.

O monge do templo me disse que, em determinado dia, fariam a cerimônia de 49 dias de falecimento do hamster.

Então nós fomos.

Por causa de um vídeo da Monja Coen em que ela falava sobre recitar o Sutra do Coração, procurei o Hannya Shingyō, imprimi e levei no dia da cerimônia. Perguntei a ele:

“Posso recitar isso aqui?”

Ele respondeu:

“Pode.”

Tentei, claro que não consegui direito. Eu não sabia nada. A conversa foi seguindo, e descobri que ele era da escola Sōtō-shū. Então descobri também que a Monja Coen era da Sōtō-shū.

Logo ele nos convidou para voltar ao templo, colher caqui com ele. E voltamos.

Ele falava muito de zazen. Zazen, zazen, zazen. Então comecei a procurar o que era zazen.

A primeira vez que tentei praticar foi em casa, pelo que havia visto na internet. Sentei num colchão, coloquei um om mani padme hum para tocar, coloquei um sino ao lado para tocar no final, fiz a postura como o vídeo ensinava. Mas eu ficava tentando “achar” alguma coisa. Pensava:

“Alguma coisa tem que acontecer.”

Nada acontecia.

Contei isso ao monge, e ele disse:

“Vai ter um zazenkai no dia primeiro de janeiro. Você não quer vir?”

Eu respondi:

“Vamos.”

E ele completou:

“Então venha no dia 31 também, para tocar o sino de fim de ano. Vai ter o Dai Hannya e outras cerimônias. Aí você participa de tudo, dorme no templo e, no dia seguinte, participa do zazen.”

Nós fomos. Toquei o sino. Eu nunca tinha visto aquilo na vida. Nunca. Esse já era outro templo, e era em um templo grande; o templo da cerimônia de falecimento do hamster era bem pequeno.

Quando vi aquilo, pensei: “Nossa, isso sim é um templo. Que coisa impressionante.”

Depois que o sino tocou, entramos na cerimônia do Dai Hannya. Eu nunca tinha visto aquelas imagens. As estátuas pareciam pessoas de verdade. Mais tarde fui saber que eram Daruma, Jizō Bosatsu e outras figuras, mas, naquele momento, pensei: “Tem gente ali atrás, não é possível.”

Terminou o Dai Hannya e fomos comer. Já era mais de uma da manhã. Estávamos comendo e conversando quando o monge perguntou:

“Você trabalhava com o quê no Brasil?”

Respondi:

“Trabalho em funerária.”

Ele levou um susto visível.

Havia uma senhora ali – que até hoje nos ajuda muito e cuida da parte administrativa – e ela começou a cutucá-lo.

Ele ficou quieto. Depois ela explicou:

“É que ele estava pensando em te chamar para ser monge, mas ficou preocupado, porque monge vai muito a lugares onde há mortos: velórios, cremações. E, se você já trabalhava em funerária…”

Ou seja, juntou a fome com a vontade de comer.

Eu fiquei meio sem reação, porque, embora desejasse aquilo, achava que não seria possível.

Então ele perguntou:

“Mas você quer ser monge?”

Eu respondi:

“Mas eu não sei falar japonês, não sei nada disso…”

E ele disse:

“Não, não. No templo, no mosteiro, ninguém conversa. A pergunta que estou fazendo não é se você sabe falar japonês.”

Então eu disse:

“Mas eu não sou japonês…”

E ele respondeu algo que ficou muito forte para mim. Disse que o budismo não é sobre país, território ou lugar. Ele estava me perguntando se eu queria seguir o Caminho.

“Quero.”

Então ele disse:

“Você precisa da autorização dos seus pais. Seus pais precisam estar de acordo.”

Mas nem esperei o dia seguinte. Liguei na hora para minha mãe.

Ela veio com aquela pergunta clássica:

“Mas vai viver do quê?”

E ela viu que não tinha mais como, e só perguntou:

“Mas é isso mesmo que você quer?”

Eu disse:

“É.”

Então ela respondeu:

“Então vai.”

Isso foi no dia 1º de janeiro. No dia 28 de janeiro, me ordenei. E no dia 20 de março fui para Tōshō-ji.

Porque, aqui na região, a maioria dos monges vai fazer o treinamento lá. E tínhamos acabado de receber a revista desse monastério, dizendo que aceitava estrangeiros.

Aí ele disse para irmos visitar o mosteiro.

Sentamos em uma sala e ficamos esperando. Daqui a pouco, o Dōchō Rōshi entrou.

A primeira vez que vi o Rōshi foi assim: ele entrou, sentou-se e começamos a conversar. A primeira coisa para a qual ele olhou foi minha cabeça. Então disse:

“Você raspa bem a cabeça.”

Em seguida, ele falou algo que ficou comigo até hoje. Disse mais ou menos assim:

“Qualquer lugar em que você entrar vai virar um templo rippa.”

Que é um templo excelente. Foi a primeira coisa que ele me disse. Primeiro contato, primeira frase.

Depois, dia 20, entrei, de fato, no mosteiro. E entrei sem saber nada. Nada mesmo. Zero. Do jeito que tinha de ser.

Como todo bom ocidental, achei que aquilo fosse uma escola: que todos os dias se sentava, aprendia, havia aulas, como numa faculdade.

No primeiro dia de trabalho saí com outro monge para carregar lenha. Subíamos até uma parte alta do terreno para buscar a lenha e íamos dando a volta toda, até a parte da horta com a lenha.

Lembro que, enquanto carregava a lenha, havia algo martelando na minha cabeça: 

“Caramba… saí de um trabalho pesado, dirigindo caminhão, fazendo demolição, carregando peso, e agora estou aqui carregando lenha.”

Depois, arrancando mato. A perna doía muito.

Eu tinha feito uns dois ou três zazen na vida e cheguei achando que já era profissional de zazen. No primeiro amanhecer, foram quase três horas sentados. Quase chorei. Perna doendo, coluna doendo, tudo doendo.

O monge que cuidava de mim era alguém que havia ficado três anos em outro templo. Já era mais velho. Inclusive, encontrei com ele outro dia, quando voltei lá. Continua firme.

E o trabalho era isso: limpeza, arrancar mato, fazer manutenção. Eu me perguntava:

“Mas… no que isso vai dar? Vim estudar budismo, vim para isso e para aquilo… e estou aqui arrancando mato, carregando lenha.”

Lembro que, um pouco antes de entrar para o mosteiro, um monge havia me levado a um hōji. Fiz aquele ritual sem entender nada e fiquei meio decepcionado. Pensei:

“Acho que isso não é para mim. Acho que vou continuar como leigo mesmo, estudar budismo por conta própria.”

Mas então entrei no monastério. E, de novo, era aquela coisa: arrancar mato, cerimônias que eu não entendia. A única coisa de que eu gostava era o oryōki, porque eu já havia assistido a vídeos sobre isso antes.

Monge Muryo:

E quando a situação mudou, como passou a gostar da vida no mosteiro?

Monge Koei:

Um dia, eu estava arrancando mato e percebi que minha perna não doía mais. Não tinha reparado antes, porque eu estava ocupado demais reclamando. Mas, naquele momento, pensei:

“Caramba… a perna não está doendo mais.”

Esse foi o primeiro “clique”. Pensei: “Acho que tem alguma coisa aqui.”

Todos os dias eu escrevia um pouco, registrava o que ia acontecendo. E permanecia sempre com a mesma pergunta:

“Por que eu tenho que arrancar mato?”

Eu arrancava o mato aqui, chegava logo adiante e ele já tinha crescido de novo. E reclamava:

“Que droga.”

Até que pensei:

“Como eu sou teimoso.”

A pergunta já era a própria resposta.

Então comecei a reparar no mato. Pensei: “Olha só… ninguém liga para o matinho. Todo mundo passa pisando nele para ir ver a rosa, para ir ver a flor bonita. Pisam no mato e nem percebem.”

Depois ainda reclamam dele.

Mas então fui observando: aqueles matinhos estão todos interligados por baixo da terra, segurando o solo, trocando água, levando ar para dentro e para fora. Você arranca o mato, e ele não reclama. No dia seguinte, está ali de novo. Não aparece, não faz barulho, ninguém nota.

E, no final das contas, é ele que está sustentando tudo.

Nós, na vida, queremos ser flor. Queremos aparecer, ser vistos, ser admirados. Só que a flor cai. Um dia está bonita, no outro cai. Primeiro perfuma; depois apodrece. Cai no lago, estraga, começa a cheirar mal.

E as pessoas passam reclamando:

“Está fedendo.”

E eu penso: “Mas é a mesma flor.”

Enquanto isso, o matinho permanece ali. Quieto. Sustentando tudo. Arranca, ele volta. Arranca de novo, ele volta.

Nós não. Acontece alguma coisa na vida e desmoronamos.

Há lugares aqui no templo em que o pessoal joga veneno para não nascer mato. Então todos ficam felizes:

“Olha que bonito, não tem mato.”

Passam três meses, o mato volta. E todos ficam irritados.

O matinho, de que ninguém espera nada, acaba controlando a vida de todo mundo. As pessoas ficam felizes quando ele não está, ficam tristes quando aparece, jogam veneno, reclamam… e o mato volta.

Ali tive meu primeiro grande insight. Pensei:

“Caramba… a vida é tão simples. É só ser mato. Para que tanta complicação?”

A partir desse dia, percebi: “Não, as coisas são mais simples.”

Depois veio outro momento marcante. Eu estava limpando o shumidan, limpando o altar, e vi um dragão. O nome do meu hamster era Ryū – que significa “dragão”.

Quando vi aquele dragão, na mesma hora me lembrei do hamster. E pensei:

“Caramba… foi o hamster que me colocou nesse caminho.”

Uma vidinha desse tamanhinho… que, para nós, ainda tem um carinho, mas que, geralmente, as pessoas nem ligam. “Um rato, um bicho!” O ser humano tem essa mania estranha de se achar muito importante.

Talvez os seres mais tolos sejam justamente os que se julgam mais importantes. Talvez seja por isso que se percam tanto, por serem tão tolos!

Aquele hamsterzinho, desse tamanhinho… Eu o colocava no meu bolso, da blusa. E agora esse pequeno hamster está sendo refletido no dragão que vejo ali no altar do mosteiro onde pratico até hoje.

Quando vi o hamster naquele altar, comecei a ver as coisas de outro modo. Comecei a reparar e pensei:

“Caramba… que coisa.”

Eu queria estudar sutras, queria entender o significado de tudo. Mas, na verdade, tudo estava acontecendo ali, diante dos meus olhos. O sutra estava acontecendo. O ensinamento estava acontecendo. O Rōshi andando, fazendo as coisas que fazia. O que todos estavam realizando ali era o ensinamento em ação.

A entrevista continua na próxima edição

Entrevista feita por Monge Muryo 無量 e Monja Kakuji 覚慈. Daissenji. Escola Soto Zen.

 

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