O Zen no Cotidiano

Muitos pensam que ser zen budista é praticar zazen e estudar o Dharma, outros pensam que é ser um monge com a cabeça raspada; não estão errados, mas praticar o Zen está além das formas e conceitos, o Zen está em tudo e é algo para vivenciar na prática, no cotidiano. No entanto, o que seria o Zen no cotidiano? Como colocamos o Dharma que aprendemos com nossos mestres em nossa vida diária?

O Zen apresenta-se quando sabemos escutar o silêncio. Exercitar a gentileza no olhar, onde antes era um lugar de críticas. Zelar para não julgar. Estar atentos para não se deixar levar pelos sentimentos. É lavar a louça com plena atenção, estando no momento presente, é arrumar a casa, lembrando que nossas ações beneficiam outras pessoas. É o trabalho com satisfação e satisfação com atenção plena. É parar por alguns instantes, respirar, acalmar a mente e estar no aqui e agora. Apenas sentar-se, pelo menos uma vez no dia. Cultivar a mente, deixar cair corpo e mente. Apenas sentar.

Quando começamos a praticar o Zen Budismo não poderíamos imaginar como nossas vidas seriam transformadas, não apenas pelos ensinamentos, pelos Preceitos, mas, principalmente, pela presença dele em nosso cotidiano.

Os Preceitos são orientações que guiam a vida de todo budista, para seguirmos o Caminho de Buddha, sem desviarmo-nos, já que a linha que o separa do resto das trilhas é muito tênue. Os Preceitos permitem-nos transitar pela vida sem deixar-nos levar pelas nossas preferências, ambições, impulsos, ou seja, nosso eu.

Praticar os Preceitos, assim como sentar em zazen, pode parecer de fácil realização, porém, quando colocamos os ensinamentos em nossa vida, em nossos relacionamentos com o ambiente e com as pessoas, percebemos o quanto vivemos de forma automática, sem considerar a impermanência e a interdependência de todos os fenômenos e, acima de tudo, o quanto estamos ligados ao nosso eu e a tudo que o cerca.

Na prática, isso não é nada fácil, e constantemente desviamo-nos. Algumas vezes, afastamo-nos de forma voluntária, pois a situação pede um desvio, para não causarmos sofrimento aos outros ou, simplesmente, para evitar conflitos e danos. Outras vezes, afastamo-nos por causa da nossa ignorância e incapacidade de sermos conscientes.

Contudo, quando temos a oportunidade de estarmos conscientes de nós mesmos e de nossas ações, um acontecimento do dia a dia pode transformar-se em um aprendizado, uma maneira de colocarmos a nossa prática em nossas ações; uma falha de comunicação com um ente querido, um desencontro, pode ser uma chance de praticarmos a paciência e tolerância; um momento de raiva pode ensinar-nos a não seguirmos os sentimentos, não nos entregarmos a eles, deixando-os passar assim como chegaram; nos altos e baixos de um relacionamento, que fazem parte da vida, temos a oportunidade de enxergar o outro, além dos nossos próprios egos, e assim, praticarmos a compaixão.

As relações interpessoais não são fáceis, no entanto, praticar o Zen no cotidiano é um aprendizado diário quando nos permitimos olhar além de nós mesmos. Praticá-lo diariamente é falar com atenção, cuidando para que as palavras não causem sofrimento, é saber ouvir, é colocar a compaixão e a harmonia em primeiro lugar; é tentar vencer a si mesmo a todo momento.

O Zen no cotidiano pode não ser fácil, nem sempre acertaremos o passo, mas, mesmo em descompasso, seguimos em frente porque acreditamos que podemos transformar nosso karma por meio das nossas ações. Tendo como objetivo maior olhar para todos os seres como parte das nossas próprias existências, com o intuito de manter a compaixão por todos eles. Procurando não causar sofrimento a nenhum ser senciente. Pois sabemos que todas as formas de vida possibilitam a nossa existência.

 

Texto elaborado pela equipe da coluna Cotidiano.

 

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