O Zen Enquanto Caminho Para a Sensibilização Ecológica

 

A experiência do Programa Zenzinho de Educação Ambiental

 

Ignorar os desastres ambientais causados pelos modos de vida que estabelecemos neste planeta já não é uma opção. Notícias evidenciam que nossa negligência frente à urgência das questões ambientais torna-se mais letal a cada ano: milhares de pessoas em todo o mundo já são vítimas de ondas de calor, queimadas, crises hídricas, enchentes, dentre outros fenômenos ambientais antropogênicos. Diante do cenário de crise em que nos encontramos, é urgente pensar em estratégias de reinvenção dos modos de convivência entre humanos e demais seres no mundo. Esta coluna traz o Budismo enquanto um conjunto de preceitos éticos, conceitos filosóficos e práticas que guardam o potencial de auxiliar as mudanças tão necessárias.

Neste texto, o foco será direcionado à prática de atenção plena oriunda do Zen Budismo, o zazen, enquanto aliada em meio a outras estratégias de educação ambiental. Para uma abordagem empírica do seu potencial transformador, teremos como referência o estudo etnográfico do pesquisador e praticante zen budista Eduardo Harguindeguy (2015), e faremos uma breve apresentação do Programa Zenzinho de Educação Ambiental, realizado há mais de 20 anos no Mosteiro Zen do Morro da Vargem, Ibiruçu, ES.

O Zen pode não despontar enquanto um meio óbvio de reconfiguração das relações entre homem e meio ambiente, se tomarmos como ponto de vista o campo mais amplo das ciências que se ocupam dos processos de transformação social. É possível encontrar matrizes de análise que ressaltam o papel de fatores socioeconômicos como centrais a qualquer plano de intervenção que tenha por objetivo mudanças sociais. Sem negar a relevância destas perspectivas, optamos, neste momento, por abordar o potencial que experiências pessoais têm de fazer com que novos valores e comportamentos ganhem forma. Consideramos que se cada um de nós vier a pensar, sentir e agir de maneira diferente, haverá uma abertura para anular o destino trágico que atualmente impomos ao meio ambiente. Além disso, sem que novos valores sejam incorporados, dificilmente haverá alguma mobilização civil para a participação num ativismo coletivo. É tendo em consideração o desenvolvimento desta conscientização que Harguindeguy (2015) destaca como o zazen pode contribuir com a educação ambiental em pelo menos três aspectos: promover a compreensão da interconexão entre humanos e meio ambiente para além do intelecto; favorecer a experiência da união entre corpo e mente; facilitar a formação de novos hábitos, que constituam um modo de vida menos nocivo.

Enquanto ocidentais, tendemos a pressupor que a aquisição de conhecimentos e informações basta para que mudanças de atitude sejam observadas. O Zen, por outro lado, propõe um conhecimento experiencial, disponível a partir da intuição. Com a prática, mente e corpo formam uma totalidade, sendo que esta totalidade é a dimensão perpassada pela compreensão. O saber é então orgânico, corporificado e expresso em cada gesto, já não é apenas um fluxo lógico de palavras a descrever uma realidade. Já sabemos explicar cientificamente, por exemplo, como o plástico acumulado nos oceanos deteriora toda a vida marinha. No entanto, este conhecimento não necessariamente conduz a uma mudança em nossas atitudes, porque escapa a uma vivência integral do modo como estamos conectados às formas de existência que são torturadas, dia após dia, pela tenebrosa quantidade de lixo que lançamos ao mar. O que o Zen pode vir a proporcionar, e com frequência o faz, é a sabedoria corpórea da relevância do gesto de preservar. A vivência da interconexão entre tudo o que existe não é algo raro entre os praticantes, e pode fazer com que a disposição para o cuidado emerja com naturalidade. Prejudicar outros seres torna-se doloroso, e o conhecimento sobre a atitude a ser tomada a cada momento já não é apenas mental. Há uma dimensão afetiva que possibilita a ação.

É possível que o Zen proporcione, também, maior facilidade na consolidação de novos hábitos, já que a disciplina é, nesta tradição, uma ferramenta de estudo de si: o modo como algo é feito indica o estado íntimo do agente, e há um esforço por parte do praticante no sentido de agir com deliberação, com atenção ao modo como algo deve ser realizado. A disciplina não figura como imposição de um padrão moral a ser seguido, mas como instrumento de prática. Pesquisas recentes no campo da psicologia cognitiva indicam que agimos por condicionamentos, havendo pouco espaço para ações deliberadas. Nossos automatismos resultam de um processo de aprimoramento cerebral, em que a grande energia gasta pelo neocortex com a tomada de decisões passa a ser poupada, uma vez que, com a repetição de uma prática, as ações vêm a ser coordenadas pela atividade dos gânglios basais. Esta é a parte do cérebro responsável pelas ações já condicionadas, que independem da reflexão e que representam cerca de 90% da nossa vida ativa.

Se, por um lado, rotinas inconscientes são essenciais, por outro, tornam-se barreiras quando pretendemos mudar nossas atitudes. A prática da concentração no momento presente pode ser emancipatória, já que auxilia na conscientização de respostas psíquicas automáticas, criando um intervalo entre emoções e ações. Com a prática de zazen é possível vir a observar pensamentos e sentimentos, e desenvolver estratégias de manejo de nossas atitudes. Há um estudo que indica um aumento da espessura do neocortex em praticantes de meditação, em regiões relacionadas à regulação emocional, fundamental às ações deliberadas. Neste sentido, é possível reinventar as práticas cotidianas em que nos engajamos, de modo a multiplicar ações empáticas que proporcionem bem-estar, e cuidado do meio ambiente. O zazen, então, compõe um conjunto de instrumentos do zen budismo que pode ter como efeito a harmonia entre humanos e natureza. Foi a confirmação desta possibilidade que Harguindeguy (2015) encontrou em sua pesquisa etnográfica sobre o Programa Zenzinho de Educação Ambiental, realizado pelo Mosteiro Zen do Morro da Vargem.

O projeto consiste em abrir as portas do mosteiro para que alunos de escolas públicas venham a experienciar, em parte, o cotidiano dos monges. Ao descrever as práticas desenvolvidas em atividades de educação ambiental, e as experiências dos participantes, Harguindeguy (2015) oferece um panorama do potencial do zazen para a sensibilização de jovens estudantes. No projeto, a prática recebe o nome de “Não Ação”, ou NA. Isso porque muitos participantes são da Igreja Evangélica, e uma referência direta ao budismo poderia dificultar o engajamento. Além da prática de sentar em NA (ou zazen), que promove a harmonização entre corpo e mente, o programa conta com aproximadamente 13 atividades, como o Ritual do Acordar, Prática do Bom dia, e a Prática Corporal nas Comidas, que levam ao cotidiano a atenção plena. Cada uma à sua maneira, essas atividades transmitem a relevância de incluir, nos mínimos gestos, a consideração pelos seres que estarão no ambiente posteriormente.

Na NA, por exemplo, os estudantes aprendem a arrumar e alinhar as almofadas. Na Prática Corporal nas Comidas, aprendem a colocar no prato apenas o que irão de fato comer, tendo em conta a rede de seres que foi mobilizada para que o alimento estivesse disponível, e a ofensa que seria o desperdício de seus esforços. Além disso, são ensinados a deixar os pratos e a cozinha limpos, para quem precisará deles mais tarde. Na Trilha Interpretativa, os alunos percorrem uma trilha curta até o Mirante do Apicuá, enquanto escutam a história do processo de recuperação da mata pelo mosteiro. Ficam surpresos ao ouvir que as mudas plantadas só estarão plenamente crescidas dentro de aproximadamente 500 anos. Entram, mais uma vez, em contato com a interconexão entre tudo o que existe, e com a necessidade de cuidar da natureza para ofertar às próximas gerações um planeta habitável. Em cada uma dessas práticas, é possível que ocorra um deslocamento do imediatismo que guia a vida nas cidades, de modo que o horizonte dos jovens se amplie, e a conexão com outros seres seja compreendida diretamente.

Podemos dizer, portanto, a partir do estudo de Harguindeguy (2015), que o Programa Zenzinho de Educação Ambiental, realizado pelo Mosteiro Zen do Morro da Vargem, oferta a jovens estudantes da rede pública uma abertura para a possibilidade de vivenciar um modo de vida ecológico, o que reflete em mudanças no cotidiano escolar e influencia as escolhas diárias desses jovens. As atividades, superficialmente descritas aqui, sinalizam que o zen budismo guarda o potencial de contribuir para a urgente alteração nos modos de vida que forjamos enquanto indivíduos e coletividade. Práticas de atenção plena favorecem a união entre mente e corpo e, por conseguinte, possibilitam um conhecimento empírico da interconexão, para além do intelecto. Se isso vem a acontecer, se esta experiência de interconexão se dá em sua dimensão corpórea, integral, a exposição de praticantes à situação catastrófica em que já estamos vivendo certamente terá um grande potencial de desencadear o ativismo de que precisamos. Vivemos uma década decisiva, e não haverá outro espaço e tempo para agir, além de aqui e agora. Precisamos de todos os meios possíveis para um despertar coletivo, e o zen tem o potencial de ser um destes caminhos.

 

Texto de Dra. Amanda Muniz, psicoterapeuta e ecopsicóloga. Praticante na Daissen Ji, Escola Soto Zen.

Para saber mais sobre o Programa Zenzinho de Educação Ambiental, clique AQUI

 

Fonte:

Harguindeguy, Eduardo Juan Manoel. Práticas de atenção plena na educação socioambiental. O Programa Zenzinho do Mosteiro Zen do Morro da Vargem. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2015.

As informações contidas no texto estão disponíveis na bibliografia utilizada no trabalho citado acima.