Entrevista com Monge Hondaku: como o Budismo Shin pode nos ajudar a superar o sofrimento

Nesta edição colocamos em pauta o ponto de vista da Escola Terra Pura sobre o sofrimento e como pudemos superá-lo, principalmente, nos tempos atuais. Vivemos em um momento repleto de crises econômicas e sanitárias, ocasionadas pela pandemia. Monge Hondaku, generosamente, irá nos conduzir pelos ensinamentos e caminhos de liberdade utilizados no Budismo Shin.

Nosso entrevistado, Monge Hondaku, podemos dizer, que seja um monge avesso aos padrões clássicos, até mesmo estereotipados, do Budismo em geral. Ele é um monge budista que adora rock’n’roll, tatuagens, bicicletas e artes marciais. É um executivo na área de vendas e palestrante motivacional. Segue o Budismo desde os 15 anos e tornou-se monge há mais de 6 anos. Pertence à Escola Terra Pura – Ordem Shinshu Otani – Higashi Hinganji. Traz consigo uma modernidade aos ensinamentos budistas, sem perder de vista a tradição.

Leonardo san: Porque sofremos tanto?

Monge Hondaku: O budismo Shin nasceu no século XIII. Na verdade, não é que ele nasceu lá no século XIII, se você olhar sob o ponto de vista da doutrina da Terra Pura, o Shin existe há muito mais tempo, praticamente, desde o 2º Concílio Budista já existia esse conceito, que é o conceito dos Budas Transcendentais, o conceito das Moradas Puras, que você acha inclusive no Cânone Pali. Mas como escola, como estruturação de escola hoje, que é a Escola Jodo Shinshu através de suas ordens, a qual eu pertenço, que é a Ordem Jodo Shin, ela tem o seu lugar na história por volta do século XIII, com os estudos de dois grandes mestres, Mestre Honen, que foi fundador da escola Jodo Shinshu e o Mestre Shinran, que é o fundador da escola Jodo Shinshu.

A doutrina dessa escola detém todo o básico da doutrina budista. O que difere uma escola budista uma das outras não é o básico e sim as práticas, a maneira que a gente vê, a maneira que a gente coloca em prática esses conceitos iniciais. Shiran sempre teve um foco especial no sofrimento humano. Praticamente toda a doutrina é baseada nos três venenos mentais: a ira, a cobiça e a ignorância. Então Shinran criou uma doutrina, criou um estudo em volta desses três venenos mentais, que ele chamava de paixões mundanas. Porque ele usava esse outro termo? Por que ele não usava termos técnicos. Então muitos termos que aparecem na escola Jodo Shinshu parecem estranhos, porque na verdade são traduções de termos não técnicos, que ele optava por usar, justamente por fazer um budismo para as massas e não um budismo dentro do templo. Era um budismo exotérico, vamos assim dizer, não um budismo esotérico, ou seja, ele não tinha nada secreto, nada restrito, então ele também usava palavreados que não fossem rebuscados, que fossem mais coloquiais para as massas, então nós falamos muito em paixões mundanas dentro do budismo Jodo Shinshu, dentro do budismo Shin, que nada mais são dos que os três venenos mentais. Com isso, já dá para termos uma ideia de quanto o budismo Shin se foca no sofrimento humano, se foca nessas paixões mundanas, que é o que nos leva ao sofrimento.

O grande caminho do sofrimento, o grande veículo para o sofrimento, são, sem dúvida, os três venenos mentais: a ira, a cobiça, ou ganância, e a ignorância. Esse ciclo infindável de conexão entre essas três paixões, esses três venenos, é o que termina nos levando ao sofrimento. Basicamente, num exemplo simples, e que a gente não leve esse exemplo como algo só material, nós somos ignorantes porque nós sofremos por não termos algo, depois nós sofremos por termos esse algo, que tememos perder, e depois nós sofremos porque, efetivamente, o perdemos. Então isso é o que gera o sofrimento. Essa angústia contínua de querer ter e perder é o que nos leva, efetivamente, ao sofrimento. Isso pode ser aplicado em qualquer situação, seja ela numa situação de prosperidade financeira, seja num relacionamento amoroso, seja numa relação pai e filho, seja numa relação de emprego, ou seja, até mesmo numa relação espiritual.

Quantas pessoas não sofrem porque não lhes atinge, acham que não atingiram e quando isso se desvai sofrem também. Quantas pessoas, e aí eu tenho vários exemplos, que buscam curas milagrosas para seus próprios problemas e então vão para o budismo, depois do budismo vão para o catolicismo, depois do catolicismo vão para o kardecismo, depois do kardecismo vão para a umbanda, depois da umbanda vão para o candomblé, depois do candomblé vão para o xamanismo e tentam uma busca incessante, incansável para, talvez, problemas que estão inertes, talvez em sua psique. Não é um problema espiritual. Talvez seja um problema psicológico e a gente nunca para, para admitir isso, né?

Então, o sofrimento parte daí, desse ciclo infindável. “Ah!, mas poxa! Quando a gente perde alguém a gente sofre porque a gente fica indignado”. Indignação é uma coisa, arrependimento é outra, saudade é uma terceira, mas o sofrimento é gerado por nossa incapacidade de compreender os fenômenos que nos cercam. A morte é extremamente incompreendida. Todos nós sofremos quando perdemos alguém. A pessoa pode ser, talvez, o maior mestre budista de todos os tempos, mas ele vai sofrer a perda, vai sofrer a saudade, por mais que se prepare para isso, não é? O sofrimento de um pai e de uma mãe que enterram um filho ou uma filha, o sofrimento de perder uma pessoa jovem, de um pai jovem, o sentimento de perder um amigo, o sentimento de simplesmente de perder um amor, de ser traído, coisas do gênero. Então, isso são exemplos de quanto a gente tem sempre essa esperança contínua de ter, a esperança contínua de não ter e a esperança do ter de novo quando se perde, ou esperança de não se perder. O mestre budista Chagdud Rinpoche falava muito sobre esperança, sobre o quanto é nociva ao ser humano. Essa esperança que nos deixa inertes, essa esperança que é baseada na ignorância e no sofrimento, é uma das grandes causas do sofrimento, porque você sempre fica na expectativa.

Outro exemplo simples é a expectativa sobre o que a gente espera das pessoas. Quantas vezes a gente sofre porque fazemos algo e esperamos algo em troca de uma pessoa e aí ficamos com raiva dessa pessoa e, às vezes, agimos de forma ignorante porque nós temos essas expectativas. Eu não estou falando que eu me livrei disso.  Eu tenho uma tremenda expectativa sobre as pessoas, eu sou um exemplo, mas a gente vive com isso. Então eu acho que o motivo do sofrimento está muito baseado nos três venenos mentais e nessa esperança ignorante que temos.

Leonardo san: Agora sabemos sobre o problema, então a próxima pergunta é: o que basicamente nós podemos fazer para sair desse ciclo?

Monge Hondaku: Bom, Shinran falava que a primeira coisa que devemos fazer diante das condições mundanas, diante dos venenos mentais é reconhece-los. Ele era muito avesso, e os praticantes do budismo Shin são muito avessos, a você tentar embelezar algo antes de entender que aquilo é feio, vamos assim dizer. Vou repetir de novo o que eu sempre falo: é o bolo de fubá da avó. Não adianta você querer comer o bolo de fubá da sua avó e querer melhorar aquele bolo. O bolo é bom, mas você quer melhorar sem conhecer a receita. Você vai criar uma série de camadas de coisas diferentes, que vai terminar não sendo um bolo de fubá e não vai ser nem melhor nem pior do que o da sua vó e você não sabe fazer porque não sabe a receita. Shinran se baseava sempre em primeiro conhecer a receita, conhecer quem você é. Ele falava que temos que aceitar, primeiramente, a condição que nós temos e entender que, ele tem uma frase célebre que ele fala assim: “dada as causas e condições o mais bondoso dos seres humanos pode matar até mil pessoas”. O que ele queria dizer com isso? Ele queria dizer que nós temos uma visão falsa de nós mesmos, temos uma visão errônea de nós mesmos, de sempre nos acharmos as pessoas mais bondosas do mundo. Claro que tem pessoas que cometem atos bem piores do que os nossos, mas nós cometemos atos ruins também, muitos atos ruins, muitos, infinitos atos ruins, mas pela nossa ignorância, pelos três venenos mentais, nós nos julgamos bons, nos julgamos pessoas boas, porque é sempre assim: “comparado com um assassino eu sou um santo”, porém ficamos irados quando alguém nos aponta o dedo e diz: “você é uma pessoa má”. Não má no sentido de querer o mau das pessoas, de querer fazer maldades, mas má do sentido de não ser 100% boa.

O conceito de bom e mau é bem interessante porque uma pessoa para ser boa tem que ser 100% boa, mas uma pessoa má não é 100% má, ela pode ter lampejos, mas para você se julgar uma pessoa boa você não pode ter mácula. Precisamos entender que isso vai ocorrer sempre, a não ser que você seja um buda e extinga seu karma. Como falamos dos três venenos mentais, vamos falar de karma agora, que é a consequência desses três venenos mentais.  É preciso compreender que tudo que nós fazemos, inclusive o nosso sofrimento é originado, tem uma causa e uma condição.

Isso é budismo básico. Mas para isso precisamos nos reconhecer e o primeiro passo para nos reconhecermos é parar de questionar “porque isso acontece comigo? Há tanta gente pior que eu no mundo e isso acontece comigo. ” Karma não escolhe identidade. Karma não escolhe se você é fulano ou ciclano. Falar esse tipo de coisa e seguir a doutrina budista é totalmente incompatível, porque parece que tem alguém lá em cima, ou em qualquer outro lugar, te apontando e falando: “Ah! Eu vou ferrar com esse cara aqui em baixo” ou “ah! Mas aquele ali eu não vou ferrar não”. E tem esse conceito nosso, egóico, nossa ignorância, nossa raiva e nosso apego a quem nós somos.

Então acho que o primeiro ponto é compreender isso. Compreender que existe um ciclo de paixões mundanas, de venenos mentais, e existe um karma associado às ações e atitudes relacionadas a esses três venenos e que tudo o que acontece conosco, inclusive o nosso sofrimento, tem causa e efeito. “Ah! Mas isso não é um consolo.” Pode não ser uma fórmula mágica, mas ele é a realidade. É a realidade. De novo, isso não quer dizer que a gente não sofra, isso não quer dizer que a gente não fique triste, que não fique indignado com as coisas que acontecem, isso não significa que a gente não se sinta injustiçado, porque a gente vai sentir tudo isso; porque nós somos seres humanos, não tem como. Uma pessoa que não sente isso é um sociopata, não é uma pessoa espiritualizada, simplesmente é um sociopata. Uma pessoa espiritualizada foca exatamente no reconhecimento disso e é onde Shinran focava. Vamos nos reconhecer como entes, ele usava uma palavra forte que vou reproduzir aqui, mas ela é muito mal interpretada, nós precisamos nos reconhecer como entes “maus”. Precisamos reconhecer que somos pessoas más. Mas no sentido de que nós não conseguimos nos livrar dessas paixões, desses venenos mentais. Então nós não somos 100% bons todo o tempo. Talvez nem 50% do tempo.  Mas ele também dizia que está tudo bem você se sentir assim. Tudo bem, porque o momento que nós vivemos, a era da decadência do Dharma que é o mapô, não é uma época propícia para surgimento de budas, não é uma época propícia para iluminações, por isso que almejamos nos iluminarmos na Terra Pura, que é uma terra onde existe a presença de um buda e, existindo a presença de um buda é muito mais fácil de se iluminar, basta ouvi-lo ou vê-lo. Então assim, quando você já passou muito tempo da existência de um buda numa terra, que é o nosso caso, 2600 anos e ainda vamos mais, fica muito mais difícil para nós termos essa iluminação.

Basicamente é isso. O que fazer é primeiramente se reconhecer. Reconhecer quem é você, reconhecer que você é um ente profano, reconhecer que você é um ente mau, que você não consegue defender a sua bondade 100% do tempo, essa é a primeira coisa. E depois é ver como você consegue transformar isso, se é que é possível transformar. Mas, pelo menos reconhecendo quem nós somos, não nos dá a falsa esperança, e aí entra a tal da esperança de novo, de nos tornarmos aquilo que é impossível, porque senão vamos cair no materialismo espiritual, que é aquela pessoa que se traveste de espiritualidade, quando ingressa num caminho espiritual, se traveste de espiritualidade e se engana, se engana totalmente, porque ela não altera a maneira dela viver, ela altera a maneira como ela se parece para a sociedade, isso é bem diferente.

Entrevista realizada por Leonardo Ota, fundador do Projeto Sobre Budismo. Praticante na Daissen. Escola Soto Zen.

 

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