A Busca

 

Meu primeiro contato com o Budismo ocorreu em 1995. Por meio do filme O Pequeno Buda conheci o Buda mítico. Por crescer em um lar evangélico e seguir, obrigatoriamente, uma religião teísta quando vi a história de Sidarta contatada de maneira alegórica, logo, assumi que Buda também seria uma divindade. Senti-me cativada por essa “divindade”, era um deus diferente do que eu conhecia, era um deus de compaixão, bem diferente do Deus que eu estava acostumada, que ao meu ver, ainda em tenra idade, considerava-O um tanto egocêntrico.

O tempo passou, seguia sentindo-me desconfortável no mundo, nenhuma religião ou filosofia apaziguava minha mente inquieta. Por meio de outro filme, Matrix, por coincidência com o mesmo ator, vi-me, novamente, frente a frente a conceitos budistas, porém, minha busca não se estendeu além de representações cinematográficas. Contudo, a inquietação da minha mente ficou ainda mais “audível”.

Entre muitas tentativas de encontrar-me, a cada vez sentia-me mais perdida, como uma peça que não se encaixava, sem lugar no mundo, sem compreender ou ser compreendida. Nessa época, eu já sabia que Buda não era deus, porém, tudo parecia abstrato. No entanto, foi por meio do veganismo, da compaixão pelos animais, em meio a pesquisas sobre o assunto, que encontrei o Dharma, e apresentou-se de uma maneira que nenhuma película poderia ter proporcionado. Ao ler o livro Tchenrezi – O Senhor da Grande Compaixão, de Bokar Rimpoche, as vendas da minha mente começaram a se dissipar. Pela primeira vez senti que alguém dizia algo que eu queria seguir, naquele momento, tive a certeza de que o Budismo era O Caminho, entretanto, eu não me sentia digna dele, por isso, naquele momento eu não o segui, por mais lindo que eu o considerasse, eu não via a mim mesma como alguém que o merecesse. Como se as peças estivessem corretas, mas, mesmo assim, não se encaixavam.

Foi quando encontrei as palestras do Sensei Genshô, o Zen Budismo, a sangha e tudo o que antes não havia sentido pareceu estar claro diante de mim, eu sabia que estava à frente de algo que procurei a minha vida toda, mas não conseguia encontrar, nem sabia que procurava, e agora parecia que estava tão tangível. Senti-me pertencente, interdependente, o Budismo não era mais uma linda filosofia, havia se transformado em possibilidade, em mudança de perspectiva, a beleza do Budismo se estender além de mim.

Agradeço todo o tempo que tive para amadurecer, caso eu tivesse me lançado às correntezas antes, os meus “eus” passados não estariam prontos para enxergar a beleza do convívio em comunidade, mesmo que virtual, eles não compreenderiam a necessidade de esquecer de si mesmo, não conseguiriam perceber a interdependência de todas as coisas. Ainda estou no início do caminho, não sei se esse “eu” atual conseguirá fazer tudo isso o tempo todo, contudo, tenho plena certeza que estou pronta para tentar, já me lancei às correntezas e quero ser arrastada por elas.

 

Texto de Débora Muccillo. Praticante na Daissen Ji. Escola Soto Zen.