Quando a Mente Se Distrai

 

Quando a mente se distrai, Mara (ignorância) está à espreita e se você está procurando Buda (despertar) não busque em um lugar distante, basta olhar sua face no espelho, ele reflete a verdade.

E você? O que está vendo?

Se há um enorme abismo entre você e tudo que existe, talvez esta seja a questão e num determinado momento você passe a ter vontade de se livrar desse muro, desta couraça que lhe impede de ir além do eu e meu.

Para trabalhar está dicotomia do eu e do outro, em primeiro lugar é preciso estudar a si mesmo, isto é, como você se comporta, sua forma de comunicar-se e de agir no mundo.

Somos capazes de transformar e curar nossas experiências usuais de paixão, agressividade e ignorância, que podem dar espaço a um estado de compaixão e lucidez plenos.

Abra a porta do seu coração e encontre todos os seres, o muro é apenas uma ilusão, é possível passar pelas nuvens e encontrar o céu azul.

Um caminho no Zen para se fazer isso é a prática de esquecer de si mesmo (zazen), e deve ser feita com firme determinação e por um longo período de tempo, horas, dias, anos, etc.

Existe um ditado que diz: “sente em zazen por 10 anos e depois por mais 10 anos e depois por mais 10 anos”.

Jamais fazemos isso de modo apropriado e pleno. Podemos ler um livro, ver televisão, beber algo, usar algum entorpecente, existem muitas rotas de fuga e um mergulho no prazer é apenas mais sofrimento e um truque desnecessário que aplicamos em nós mesmos. É necessário mudar o olhar, enxergar além do tempo urbano.

Octavio Paz num parágrafo belíssimo de “O arco e a lira “olhou com outros olhos a existência e subitamente   tudo ficou banhado por uma luz antiquíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer”.

“Todos os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim; todas as tardes nossos olhos batem no mesmo muro avermelhado, feito de tijolos e tempo urbano. De repente, num dia qualquer, a rua dá para outro mundo, o jardim acaba de nascer, o muro fatigado se cobre de signos. Nunca os tínhamos visto e agora ficamos espantados por eles serem assim: tantos e tão esmagadoramente reais.

Sua própria realidade compacta nos faz duvidar: são assim as coisas ou são de outro modo? Não, isso que estamos vendo pela primeira vez já havíamos visto antes. Em algum lugar, no qual nunca estivemos, já estavam o muro, a rua, o jardim.

E à surpresa segue-se a nostalgia. Parece que nos recordamos e quereríamos voltar para lá, para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiquíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá.

Um sopro nos golpeia a fronte. Estamos encantados, suspensos no meio da tarde imóvel. Adivinhamos que somos de outro mundo.”

 

Nada mudou, mas mudaram-se os olhos,

Portanto, tudo mudou, mas fica a pergunta:

Quem é você?

Ao tentar descobrir quem você é, talvez

Descubra quem você não é.

É como descascar uma cebola, depois de retirar todas as camadas o que resta?

Onde está a cebola?

 

Texto de Paulo Chikô. Praticante na Daissen Ji. Escola Soto Zen.