Núcleo LGBTQIA+ do Templo Eininji: Espaço de Amor, Compreensão e Acolhimento

 

A necessidade de acolhimento em um espaço seguro é o que motiva as pessoas a procurarem uma comunidade. Sediado em Copacabana, na entrada da comunidade Pavão-Pavãozinho, o Centro Zen Eininji (Templo do Cuidado Amoroso Eterno) tem como princípio acolher pessoas que buscam conhecer nossa prática e incorporá-la em suas vidas. Nossa prática se enraíza no Budismo Zen, orientada pelo irmão Alcio Braz Eido Soho Sensei, orientador da sanga Zen do Rio de Janeiro desde 1995 e diretor do Eininji desde sua fundação em 2001. Nosso templo é afiliado à Zen Peacemakers International (ZPI) e ao Upaya Zen Center, dirigido por Joan Halifax Roshi, nossa professora. Sou Rafael Mundim, aluno de Alcio Braz desde 2015,  sou professor do darma em Eininji desde 2019 e atualmente estudante de Upaya através do treinamento em Budismo socialmente engajado (Upaya Socially Engaged Buddhist Training – SEBT). Sou idealizador e coordenador do Núcleo LGBTQIA+ de Eininji – espaço de acolhimento e ação engajada, projeto supervisionado pelo SEBT.

Nossa comunidade convive com os desafios de manter uma sanga: a sobrevivência por meio de doações financeiras e de voluntariado, administração de nosso espaço e a saúde física e mental de cada praticante. Sobretudo, nosso compromisso diário em assistir nossa sanga nos fortaleceu e encorajou a sermos vigilantes quanto a sinais de violência sistêmica que possa se reproduzir internamente. Assim, temos uma política aberta contra racismo, machismo, lgbtfobia, capacitismo, etarismo e outras formas de discriminação. Queremos nossa sanga florescendo na diversidade de origens e vozes para que nossa unidade seja plena e acredito que visitantes e praticantes se sintam em casa conosco por isso. Nosso compromisso com a não violência nos motiva a seguir praticando e desenvolvendo novas formas de manifestar o Dharma, sem apego ao lugar ou à figura de um mestre. Nesse sentido, temos aprendido muito com a prática dentro da comunidade budista como um todo, e compreendemos a necessidade de nos adaptarmos ao contexto brasileiro e carioca do século XXI. Por isso, Eininji ressalta a importância de ser um espaço seguro de acolhimento para quem nos procura e estimula a prática em terrenos pouco iluminados da sociedade.

O Núcleo LGBTQIA+ de Eininji é fruto do compromisso de estender o espaço para além da formalidade budista e abraçar o sofrimento real que permeia nossa vida. É papel da sanga quebrar barreiras e testemunhar a dor invisibilizada e dar condições para que a regeneração seja possível. Porém, o medo da exposição e do abuso moral e físico muitas vezes afasta pessoas que necessitam de cuidado; pois, infelizmente, nosso país é palco de episódios recorrentes de abuso em instituições religiosas. A dor de ter sua vulnerabilidade abusada destruiu muitas vidas e seus abusadores muitas vezes seguem impunes. E o que podemos fazer diante disso? O cuidado amoroso é o propósito de Eininji e essência do Núcleo LGBTQIA+. Nossa aspiração de bodisatvas nos ensina que o cuidado amoroso começa conosco mesmo. Se não formos capazes de reconhecer que, assim como temos a natureza de Buda, também temos a natureza de Hitler, não estaremos praticando o Dharma, mas apenas vivendo uma fantasia no materialismo espiritual. Por isso, nossa prática se sustenta nos Três Preceitos: Não Saber, Testemunhar e Ação Engajada.

Ao praticarmos o Não Saber, permitimos reconhecer tanto nossa bondade quanto nossa crueldade e acolhê-las no espaço ilimitado da Compaixão. É muito comum se pensar que praticar o Dharma é não sentir raiva. Na verdade, a prática nos convida a conhecer nossa raiva de forma a podermos compreendê-la antes que nos autodestruamos por nossa cólera. Praticar o Não Saber é abrir mão de julgamentos sobre o mundo e nossa autoimagem e viver a realidade que se manifesta através de nós. Nesse sentido, uma das dinâmicas recorrentes do Núcleo LGBTQIA+ é o Caminho do Conselho, difundido pela ZPI, no qual cada participante tem seu momento para falar a partir do coração, sem as amarras da vergonha, da censura ou do medo, enquanto as demais permanecem ouvindo com coração aberto em silêncio. Os benefícios desta prática transcendem a necessidade impulsiva de querer aconselhar ou criticar a vida das outras pessoas que comumente sentimos no cotidiano. Na verdade, nossa prática não quer consertar nada nem procura bons resultados. Nossa atitude é primordialmente testemunhar o momento presente, ou seja, escolhemos estar aqui e agora.

Tanto nessa prática como em outras, Testemunhar é um chamado a estar presente como comunidade, porque somente assim poderemos sentir o efeito da prática compartilhada. Estar em comunidade é estar aberta a testemunhar o relato de vida de cada pessoa, é estar presente e compartilhar dor, raiva, tristeza, alegria e luto. Viver em comunidade é não virar o rosto para o sofrimento, dado que ele é um denominador comum de nossas vidas. Acreditamos que, quando entendemos a real intenção de nossa prática e passamos a vivenciá-la, começamos a praticar a ação adequada, que considera a necessidade da situação, não aquilo que achamos certo ou a melhor solução. Sabemos que o sofrimento é uma realidade da qual não podemos fugir, mas temos plenas condições de agir no mundo de forma a aliviar a dor.

O princípio da Ação Engajada é o que justifica a existência do Núcleo LGBTQIA+: não virar o rosto para o sofrimento, mas entender que ele nos une e que podemos fazer algo para aliviar a dor compartilhada. Nesse sentido, a ação é coletiva. O projeto tem a preocupação de reforçar o cuidado com a saúde, estimulando atividades físicas, a prática da meditação e a busca de auxílio profissional quando necessário. Através da abertura ao cuidado, o projeto estimula a própria sanga a se engajar, oferecendo auxílio profissional e também a escuta empática.

Com dois meses de existência, somamos 21 participantes e nos reunimos semanalmente para meditar e testemunhar nossas vidas. Refletindo sobre a existência do projeto, perguntei a algumas participantes o que significa estar em um espaço seguro. Uma pessoa respondeu: “Significa estar confiante de que qualquer violência será tratada com cuidado para ser erradicada, e vejo este cuidado em nosso núcleo”. Outra respondeu: “É onde posso me acolher e reconhecer o processo que mexe com minhas questões. Eu sinto que o Núcleo de acolhimento LGBTQIA+ do Templo Eininji é um espaço seguro e tem sido para mim”.

O papel deste projeto é despertar a consciência para o cuidado amoroso de si em uma população que é marcada pelo ódio introjetado, pela rejeição de nossa existência e pela invisibilização de nossas pautas coletivas. Dentro do universo do ativismo LGBTAQIA+, este núcleo oferece instrumentos para que possamos transformar nossa raiva em ação adequada, considerando o bem-estar pessoal como base para a atuação em comunidade. Nosso voto como bodisatvas é encontrar nos traumas pessoal e coletivo o despertar para uma existência não violenta e destemida no mundo; pois, um ser sem medo é um ser que se conhece livre e capaz de explorar sua potencialidade.

Grato por sua leitura presente.

 

Rafael Mundim, praticante budista, terapeuta e coordenador do projeto Núcleo LGBTQIA+, Templo Zen Budista Eininji.

 

Para saber mais sobre o projeto acesse a página do Templo, clicando AQUI