O Corajoso General

 

Havia certo general chinês que em batalha liderou seus homens com coragem e destemida força. Nada podia levá-lo a sentir medo, pois sua convicção era inabalável.

Certo dia ele estava em casa, tomando chá usando sua mais adorada relíquia, uma bela xícara de porcelana finamente decorada.

Ele era profundamente apaixonado por aquela peça que estava em sua família há gerações, e a estimava muito. Quando fez o gesto de colocá-la na mesa sua mão vacilou e a xícara começou a cair ao chão.

Terrificado pelo temor de que a peça se quebrasse, o general lançou-se ao chão e no último momento conseguiu pegá-la.

Ainda tenso, tremendo e suando frio, o general pensou,

“Liderei homens em terríveis guerras e passei por momentos assustadores na vida sem jamais vacilar! Como é possível que eu sentisse tanto temor por causa de um pequeno objeto de porcelana?!?”

Então o general percebeu plenamente a natureza de seu apego na vida. Neste momento, largou a xícara ao chão, voltou-se para uma vida contemplativa e pacífica, abandonando a violência e a paixão egoísta que dominavam sua mente ignorante por tanto tempo.

 

Comentário:

O que é coragem? Enfrentar inimigos sem medo, ou enfrentar seu apego egoísta sem vaidade?

É corajoso imaginar-se resoluto em vitórias pueris, conquistas inúteis, fama ilusória?

Pobres de nós. Vivemos num mundo fútil, achando que para obter o sucesso é preciso agir como um conquistador, matando tudo o que está à nossa frente, entorpecidos por uma mente egoísta e perdidos em delusão.

Um guerreiro não é corajoso. Não há heroísmo em matar inimigos, nem mesmo sob a desculpa de defender sua honra, sua pátria ou sua vida.

A solução do ódio é a saída fácil daqueles que são cegos para a realidade; buscar a paz até o fim, confiar na bondade, compaixão, compreensão; valorizar sempre a vida, eis a real dignidade.

Que lástima! Quão poucas pessoas entendem este ensinamento!

A coragem está na mãe que supera a dor para dar à luz um filho; está naquele que, apesar de toda injustiça, mantêm-se firme no caminho do diálogo; no indivíduo que tem forças para encontrar a si mesmo; na pessoa que humildemente admite sua própria ignorância e vaidade.

A coragem está em mudar a sua mente.

Deixe cair a xícara. Solte-a. Tudo o que você carrega em seu nome, todo o fardo de egoísmos e ignorâncias que você sustenta sem nem mesmo perceber, não passam de sombras refletidas na parede, cinzas de um mundo inventado.

Nós não temos nada. Nada! Apenas quando abandonarmos a ilusão de que possuímos coisas que nunca serão nossas, poderemos alcançar a única realização verdadeira: uma mente livre do egoísmo.

Neste momento, atingiremos a felicidade.

 

Comentário por Monge Kōmyō Sensei, monge zen budista. Escola Soto Zen.

Foto por Erik Johansson, Suécia.