Equilíbrio

 

Na primeira nobre verdade, o Buda nos revela a existência de Dukkha, a natureza insatisfatória da vida. Muitas vezes o termo é traduzido como “sofrimento”, porém o termo não quer dizer exatamente isso. Em uma oportunidade, Genshô Sensei explicou de maneira muito sábia que o prefixo “duk” significa “eixo”. Portanto, Dukkha é uma espécie de insatisfação ligada a ciclos, fora do eixo, cheia de altos e baixos.

Não é preciso muito esforço para perceber isso no cotidiano. Muitas pessoas chegam até os consultórios de psicologia na esperança que ali encontrarão sua liberdade dos altos e baixos naturais da vida que levamos. Não é incomum que pacientes tragam que seus problemas são impossíveis de serem resolvidos, pois o mundo é muito injusto, e sempre existe uma pessoa para lhe atrapalhar em seu caminho para atingir suas aspirações. A questão aqui não é que essa percepção seja equivocada, o mundo realmente está envolvido nos ciclos de insatisfação. Não é incomum que nos digam algo, ou tomem alguma atitude que nos prejudique e acabem com a nossa satisfação como se fosse mágica. É inegável que a realidade é instável, que tudo muda.

O problema só começa realmente a ser resolvido quando paramos de procurar equilíbrio lá fora e começamos a desenvolver equilíbrio dentro de nós. O mundo não vai deixar de ser o que é, independentemente do quão forte é nossa vontade para que ele seja o que não é. Quando praticamos zazen, por exemplo, não tomamos nenhuma atitude em relação a barulhos, desconfortos, vontades que surgem ou quaisquer outras coisas. Isso é uma grande lição sobre equilíbrio interior, pois é assim que dissolvemos a mente que é levada para onde o vento assopra. E é de uma maneira parecida que podemos cuidar da nossa saúde mental também.

Novamente no zazen, é esse equilíbrio que nos permite continuar praticando, pois sempre existe algo que pode virar motivo para fazer qualquer outra coisa. Se tratando de emoções, acontece de maneira parecida, qualquer coisa pode nos tirar do nosso equilíbrio. A raiva, angústia e tristeza existem e não vão desaparecer de nossas vidas, a questão é se vamos nos deixar levar por elas ou se vamos tomar outro caminho. Muitas pessoas, diante de sentimentos e situações da vida acabam se machucando, tomando decisões que causam sofrimento a outras pessoas e até desenvolvendo hábitos nocivos à própria saúde pois ainda não descobriram que são elas mesmas que precisam mudar suas próprias mentes. Se algo te puxa pra lá, você precisa voltar ao equilíbrio, se algo te empurra, faça a mesma coisa.

Experimente, em algum momento de dificuldade, trocar o sentimento de raiva por ações generosas. Troque a insegurança por ações que te coloquem no caminho que quer seguir. Quando se sentir triste, magoado, pratique se doar para algo, oferecer ajuda para alguém e veja qual o efeito disso em sua vida. Só é possível conseguir equilíbrio e saúde na vida quando assumimos as rédeas, nós mesmos, de nossa própria mente.

 

Texto de Renato Oliveira, psicólogo e terapeuta clínico. Praticante na Daissen Ji. Escola Soto Zen.

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