Diálogos Sobre Psicanálise e Meditação com a Psicanalista e Monja Zen Bernadete Kenzen

 

Nesta edição tivemos o prazer de conversar com a Monja Kenzen, que também é psicóloga e psicanalista, sócia fundadora do Instituto Biaggi – Psicoterapia Psicanálise Cultura e Arte Brasil – Itália, docente na Itália (SISPI) e no Brasil (CICLO CEAP) em Psicanálise. Nessa conversa, Bernadete (seu nome leigo) nos conta um pouco sobre as relações entre psicanálise e meditação, até onde podemos aproximá-las; como uma pode auxiliar a outra e sobre a relação entre Budismo e ciência, trazendo dados de estudos que mostram como a meditação é capaz de mudar o cérebro.

 

Monja, poderia, primeiramente, falar sobre sua formação como monja e como psicanalista?

Vou começar a contar como abracei o meu caminho. A minha história foi marcada por muitas perdas. Na infância eu perdi dois irmãos, tive separação de pais, minha mãe era deprimida e chegou a passar por internações psiquiátricas, e veio a suicidar quando eu ainda era adolescente. Então, esse é um pouco do percurso ligado a impermanência de todas as coisas. Eu fui visitada pela impermanência durante toda a minha formação. Visitada com momentos que são de grandes cortes, em psicanálise chamamos de cesura. São momentos de mudança radical no nosso olhar, esse olhar da impermanência.

Nas minhas procuras de trazer um pouco de ligação da minha mãe com a vida, levei-a para o yoga com uma pessoa de referência, que é a Maria José Marinho, mas minha mãe não permaneceu ali, ela ficou um tempo, mas depois abandonou e eu permaneci praticando, iniciando ainda na adolescência o meu caminho na formação de instrutora de yoga. Uma formação eu não terminei, mas outra cheguei a finalizar, que foi com Georg Kritikus, Swami Sarvananda. Nunca pratiquei essa habilitação, mas sempre pratiquei e ainda pratico yoga.  Então, o meu encontro com o yoga aconteceu nesse momento muito dramático da minha vida, experiência essa que vou chamar de experiência do inominável, são experiências que nos remetem a um grande e profundo silêncio e em uma procura e uma busca muito intensa.

Conheci o Zen Budismo com o mestre Tokuda em suas vindas a Belo Horizonte. Naquele momento, eu estava me formando em psicologia e me dedicando profundamente ao trabalho, entre clínica e hospital psiquiátrico, mas eu não tinha muito tempo. Mesmo assim frequentei o Budismo de várias maneiras, frequentei também o budismo tibetano, nunca deixei de semear o meu caminho. Acompanhei o mestre Tokuda por um tempo, mas com pouca leitura e prática. Fui me embrenhando por outras situações até que eu retomo a prática de meditação zazen, com o Monge Napoleão Ryokei. Dali para frente comecei a frequentar a sangha do Monge Napoleão, frequentei também o Templo Zen das Alterosas com o Monge Mokugen Sensei e com a Monja Mariângela Ryosen. Nesse momento, participava de retiros e estava bem dedicada à prática e foi quando estabeleci meu consultório também em São Paulo e comecei a frequentar o Templo Busshinji. Em 2014, recebi os preceitos como leiga e em 2016; a ordenação monástica, ambas por Dosho Saikawa Roshi, de quem sou discípula. Eu estava indo para o Japão para meu treinamento, estava com tudo certo, mas tive um problema de saúde e não pude ir. Estava novamente indo, recentemente, mas veio o covid e atualmente estou aguardando. Sou apenas uma Monja noviça e estou começando a minha caminhada. Em 2018, fundei o meu zendô que se chama Ho Ren An e aqui dou instruções para praticantes iniciantes. Aqui na minha sangha fazemos a prática e fazemos ações sociais, em especial com a população de rua. Levamos nossa prática, mas principalmente doações. Continuo levando a prática de zazen em qualquer lugar que eu esteja. Trabalho como psicanalista, mas dou muitos cursos pelo Brasil e fora do país, principalmente na Itália, e onde estou propicio a prática do zazen. Todo o trabalho que organizo ofereço a prática.

A psicanálise é uma forma de autoconhecimento que se dá por meio da fala e da elaboração. Já a prática da meditação é também uma forma de autoconhecimento, mas se dá de maneira quase oposta à psicanálise, por meio da não elaboração e de esquecer-se de si mesmo. Como seria possível uma conciliação entre métodos tão distintos? Com a meditação a senhora acredita que é possível acessar o subconsciente?

A psicanálise também é silêncio, se não fizermos silêncio não vamos escutar e não vamos perceber. Freud, que é o pai da psicanálise, dizia que as estrelas estão sempre no firmamento, é preciso que se faça escuro para que possamos vê-las. É como se nós tivéssemos como lançar um facho de escuridão na nossa visão para que a gente possa ver. Freud concluiu que os sintomas de neuroses como ansiedade e depressão podiam ser aliviados pelo que foi chamado “cura pela fala”, ou seja, deixar o paciente divagar sobre suas ideias, medos, memórias e sonhos criando novos significados e, acrescento, novas conexões neurais. Então, tanto a prática do Zen quanto a prática da psicanálise demandam silêncio, demandam um facho de escuridão para que a gente possa ver as coisas que estavam guardadas. Para que a gente possa ver o não-nascido da psicanálise e o não-nascido do Zen, que é a proximidade com a mente original. Quando nos sentamos para praticar zazen e quando nos deitamos em um divã estamos fazendo aproximações dessa ampliação da visão, sendo que a psicanálise tem objeto e a prática do Zen é sem objeto. Para as duas existe a demanda do esforço correto. Na psicanálise é dirigido para o resultado e no Zen para o não resultado. Normalmente, queremos alcançar algo e esse algo está sempre preso a um resultado. Na prática do zazen direcionamos o esforço todo para o não resultado, que vai nos libertar do resultado e quando fazemos uma prática com o espírito de não resultado estamos indo em encontro com nossa natureza original. Essa percepção ela é diferenciada no Zen e na psicanálise.

Muitas pessoas perguntam: para que praticar sem resultado? Que tipo de esforço vamos fazer? Penso que o esforço é para libertar a nossa prática de tudo que estiver demais. Temos uma vida no mundo relativo, vivemos em um mundo de dualidade, mas não precisamos estar duais internamente. O esforço, tanto em um divã quanto no zafu (almofada de meditação), é um esforço para estar entregue às relações diversas; um, relacionado para a qualidade da minha mente e o outro, para minha mente universal. Eu não diria que uma é pela palavra e a outra não, a gente precisaria ampliar essa visão do que chamamos de palavra. A psicanálise é realmente a cura pela palavra, mas curar o que? Cura de problemas psicológicos, traumas, situações que estão me impedindo de responder com saúde no mundo de dualidade, em um mundo relativo. Já o Zen, penso eu, que não é para isso, o Zen não é para nada. Toda essa experiência é para que a gente perca absolutamente essa mente dual.

 

A senhora acredita em benefícios da meditação para tratamento de problemas psíquicos?

Eu sou analista profissional há quarenta anos, minha dedicação ao Zen é mais recente, depois da minha ordenação. Tanto a psicanálise quanto o Zen trabalham com o sofrimento humano. A psicanálise tem um corpo teórico e uma prática com um objetivo: a manutenção da saúde mental. Já a prática do zazen, do shikantaza (apenas sentar-se), é uma prática que não tem nenhuma resolução de problema como objetivo. Nesse aspecto, são práticas muito distintas; a psicanálise tem o objeto da saúde mental, já o zazen não tem nenhum objeto. O zazen é justamente uma ausência de objeto, uma prática que ultrapassa o olhar, ter a concentração mais aprazível na totalidade, na interconexão entre todos os fenômenos. Não podemos confundir, e esse é um ponto muito importante, porque muitas pessoas buscam a prática do Zen para resolução de problemas mentais e com certeza não serão atingidos com a devida responsabilidade que deve ter um trabalho nessa área. Porque aqui nós temos grandes sofrimentos e grandes distúrbios. Pessoas que não conseguem se organizar psiquicamente podem cometer crimes, atos de violência contra si mesmas, ter um prejuízo social. Então eu acho que cada macaco no seu galho.

Tanto o Zen quanto a psicanálise têm como substância a realidade, só que uma tem um caminho com o objeto, um caminho que vai em direção à busca de uma saúde, culminando com o objetivo de abdicar das ilusões narcísicas. Essas ilusões narcísicas são falhas que vêm acontecendo, desde um período gestacional, até em especial a primeira infância, são falhas na construção de um psiquismo e isso a gente resolve com a ajuda de um profissional. Nós da psicanálise temos os instrumentos nessa área. Hoje, estamos assistindo pessoas sem nenhuma qualificação atuando nessa área e quase que sujeitando pessoas a um engano, no sentido de que não têm um preparo adequado para trabalhar estas questões. Para isso é necessário um estudo muito profundo.

Os instrumentos não são os mesmos da prática do Zen, pois o Zen não tem essa meta de trabalhar saúde mental, é uma busca do despertar. Então, não podemos buscar na prática do Zen a solução para a saúde mental. No entanto, é inegável que uma prática auxilia a outra. Não tem nada excludente, essa dualidade não é o caminho do Zen. Temos o mundo absoluto e o mundo relativo e no mundo relativo enfrentamos problemas. Acredito que a prática do zazen vai conduzir à uma percepção de si, mas não dá para curar problemas psíquicos com a prática de zazen. Então, temos que guardar o lugar de cada um desses métodos. Agora como prática de existência, é claro que são dimensões em que o indivíduo vai despertando e ele vai então fazer seu próprio caminho.

A prática do zazen nos coloca de frente para nós mesmos, vamos penetrando em nós mesmos e temos a condição de fazer uma observação das nossas sensações, sentimentos, pensamentos, de como está nossa relação conosco. Faço uma analogia da nossa prática com uma imagem de uma pessoa que tem vontade de ir para uma praia e entrar no mar, aparecendo como forma de desejo. Muitas pessoas ficam nesse desejo e na criação de uma série de sofrimentos, caso esse desejo passe por uma frustração ou acomodação por parte desse indivíduo. Alguns tomam uma atitude e vão realizar esse desejo. Quando chegam à praia, olham o mar, a areia, encontram um lugar, movimentam o corpo, observam o mar e o infinito e vagarosamente vão entrando no mar. Com os pés na água começamos a ter as sensações, está fria, está quente, mas ainda estamos comparando muito. Observamos as pessoas e classificamos entre feio, bonito, gordo, magro, ainda é uma fase de muita comparação. Enquanto estou na areia e entrando na água estou só comparando. Com os pés na água minha percepção já se volta mais para meu corpo e lentamente vou entrando na água até que dou um mergulho. No instante em que dou esse mergulho já não existe eu e água. Acho que nossa prática pode ser comparada ao desejo e esse desejo passar por uma realização ou não. Quando se realiza temos um período enorme de chegada na praia, de comparação, e depois vamos saindo desse momento de comparação e vamos passando para um momento de percepção. Essa percepção dos sentidos nos dá uma ideia de que já estamos nos misturando e quando damos o mergulho já não existe separação. Então, acho que na nossa prática vamos aprendendo a sentir, ver em profundidade, além das limitações dos sentidos e da sensorialidade da mente. Essa sensorialidade é um momento de muita comparação, onde os órgãos da sensorialidade indicam quem sou eu, o que eu desejo e nessa fase de comparação há ainda grande sofrimento, porque ainda não entrei na profundidade dessa percepção da natureza original. Essa natureza original é a busca que a nossa prática nos propicia, esse despertar, esse acordar, e vamos despertando em nós uma grande compaixão e, vagarosamente, nos colocando a serviço dos outros seres, buscando uma existência de harmonia.

A psicanálise também é um mergulho, mas é feito a dois, é muito diferente do mergulho feito na prática do zen. Além do mergulho da psicanálise ser feito a dois, tem também um objeto, também faz com que a gente desperte para um eu muito maior e que a gente saia da sensorialidade da mente. Então, temos uma mente sensorial que nos faz entrar em contato com esse lugar de sofrimento. Tanto a prática do zen quanto a prática da psicanálise têm de substância a realidade e encontram no caminho um grande obstáculo que leva ao sofrimento, porque uma mente muito sensorial é uma mente de um pensamento muito concreto, onde os órgãos do sentido vão tendo primazia, então fica uma mente muito saturada e não é capaz de enxergar além de si. Tanto a prática do zazen quanto da psicanálise busca retirar a pessoa do excesso de sensorialidade da mente. Quando nos sentamos em zazen nossa mente sensorial nos assola, sentimos dor, incômodos, pensamentos nos visitam. Esse é um ponto muito em comum com o caminho da psicanálise, mas reafirmo que cada macaco no seu galho. Porém, ambos estão trabalhando com o sofrimento, para que possamos desfrutar de algum lugar, de um eu grandioso, maior, que no zen é inclusive a perda desse eu, é um eu sem eu.

A senhora acredita que com a meditação é possível acessar o subconsciente?

A palavra subconsciente é usada na Psicologia e, embora tenha sido usada por Freud, foi sendo substituída por inconsciente. Ela foi pensada pelo psiquiatra Pierre Janet para definir o que está fora da consciência. A prática da meditação ajuda a acessar esse material que está fora da consciência em decorrência das condições fisiológicas provocadas por cada estado meditativo. Temos diversos tipos de meditação e de ondas cerebrais que recrutam áreas cerebrais diversas.

 

A senhora acredita que a meditação é capaz de alterar o cérebro fisiologicamente? Há relação entre o Budismo e a ciência?

 

Vários estudos científicos têm comprovado que a prática favorece a capacidade de aprendizado e concentração, ajuda a perceber melhor as próprias emoções e a lidar com elas. Estudos bastante robustos vêm sustentando seu uso na saúde mental como ferramenta auxiliar nos quadros de depressão, ansiedade, hiperatividade favorecendo a sensação de bem-estar na vida cotidiana.

Dalai Lama vem buscando por respostas a esta pergunta e na década de 80 havia deflagrado o diálogo sobre ciência e budismo, que levou à criação do Instituto Mind & Life, em Massachussetts, dedicado à ciência contemplativa. Em 2000, ele convidou cientistas a estudar a atividade cerebral de meditadores budistas experientes por ter mais de 10 mil horas de prática. Uma comparação entre imagens de exames de varredura cerebral de meditadores e não-meditadores e neófitos começou a revelar o grande potencial para proporcionar benefícios cognitivos e emocionais dialogando assim com os objetivos da Psicologia clínica, Psiquiatria, medicina e educação.

É crescente o número de pesquisas e as descobertas coincidem com recentes constatações da existência da plasticidade cerebral, que permite que o órgão adulto seja profundamente transformado por meio da experiência. O meditador experiente regula estados mentais que facilitam seu enriquecimento subjetivo e esta experiência interna afeta o funcionamento e a estrutura física do cérebro podendo reorganizar circuitos neurológicos para produzir efeitos salutares para o cérebro, a mente e todo o corpo.

A meditação tem raízes nas práticas contemplativas e confere ao praticante o cultivo de qualidades humanas básicas, como a compaixão, tão estudada hoje também no viés da ciência. A meditação tem sido praticada em hospitais e escolas em todo o mundo.

Neurocientistas investigam sobre o que ocorre no cérebro durante os vários tipos de meditação utilizando técnicas de imageamento cerebral para identificar as redes neurais ativadas pelos vários tipos de meditação. Citando uma delas, a meditação da atenção plena ou meditação de monitoramento aberto, que implica observar percepções e sensações corporais internas e pensamentos sem se deixar levar por eles, pode-se observar uma menor atividade em áreas relacionadas à ansiedade, como o córtex insular e a amígdala. Na meditação onde o foco é sustentado por longos períodos na respiração, o córtex pré-frontal dorsolateral permanece ativo. Essa estrutura é fundamental para o ser humano, porque está envolvida em processos cognitivos como atenção, planejamento e integração das informações cognitivas, emocionais e motivacionais.

Em meditadores experientes ocorrem mudanças em atividade elétrica no cérebro que podem refletir uma consciência maior do ambiente que os cerca e de seus processos mentais internos, bem como alterações no volume de certas áreas do cérebro, o que possivelmente reflete alterações no número de conexões entre as células cerebrais.

Uma renomada bióloga molecular, Sara Lazar, e seus colaboradores da Universidade de Harvard mostraram que o volume de matéria cinzenta nos meditadores experientes era diferente na ínsula e no córtex pré-frontal sugerindo que a meditação pode diminuir o afinamento do tecido cerebral nos participantes mais idosos. Também mostrou que diminui o volume da amígdala, região envolvida no processamento do medo.

Outros pesquisadores importantes como o neurocientista Eileen Luders, da Universidade da Califórnia e seus colegas observaram que em meditadores as características dos axônios, que conectam diferentes regiões do cérebro, são diferentes, sugerindo um número maior de conexões cerebrais e esta constatação amarra a hipótese de que meditar induz a alterações estruturais do cérebro.

Concluindo, são muitos estudos e descobertas que sugerem que as práticas meditativas produzem mudanças significativas tanto na função como na estrutura do cérebro e, quando somados a outros fatores psicológicos que podem influenciar os resultados, como as psicoterapias, indicam que práticas contemplativas podem ter impacto substancial em processos biológicos essenciais para a saúde física e benefícios em variados âmbitos da sociedade.

 

Se desejarem saber mais informações sobre o assunto, os contatos da Monja Kenzen e o Instituto Biaggi estão disponíveis nos links e telefone abaixo.

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