Comunicação Não Violenta

 

A Comunicação Não Violenta (CNV) foi desenvolvida por Marshall Rosenberg como uma teoria e uma prática que segue o princípio de Não Violência (Ahimsa) na linha do que foi proposto por Gandhi. Tem sido utilizada como uma forma eficaz para a mediação de conflitos interpessoais e intergrupais em vários países, desde a década de 1960.

Nas suas pesquisas iniciais, Rosenberg procurou investigar por qual razão a comunicação é ou se torna violenta. Ele afirma que a violência se deve à “linguagem que fomos ensinados a usar, como nos ensinaram a pensar e a nos comunicarmos, e às estratégias específicas que aprendemos para influenciar os outros e a nós mesmos” (Rosenberg p. 9-10). De modo que a teoria e a prática consistem no aprendizado de uma forma diferente de se comunicar, diferente do que geralmente aprendemos em nossas culturas.

A CNV também pode ser chamada de comunicação compassiva, tendo a compaixão como o que se contrapõe à violência: “A Comunicação Não Violenta (CNV) é um poderoso modelo de comunicação, mas vai muito além disso. É um modo de ser, de pensar e de viver. Seu propósito é inspirar conexões sinceras entre as pessoas de maneira que as necessidades de todos sejam atendidas por meio da doação compassiva” (Rosenberg p. 9-10)

Um conceito fundamental para começar a entender e a praticar a CNV é a ideia de necessidades humanas universais. É evidente que todos os seres humanos precisam de ar, água, alimento, abrigo e proteção contra formas de ameaça à vida como vírus e bactérias. Mas é menos evidente que todos nós temos necessidades emocionais como apoio, apreciação, empatia, amor, afeto, enfim, conexão com os outros; bem como necessidades de autonomia, autenticidade, criatividade, propósito, entre outras. Na literatura da CNV, encontramos listas completas com as necessidades humanas universais.

O objetivo é conhecer e reconhecer que todos temos estas necessidades em maior ou menor intensidade, dependendo das condições do momento.

Assim, podemos pensar a CNV em três frentes:

 

– Fala autêntica (a forma como eu me expresso)

– Escuta empática (a maneira como eu escuto o outro)

– Autocompaixão (o jeito como eu lido comigo mesmo).

 

“Por um lado, a CNV nos mostra como devemos nos expressar de modo a aumentar as chances de que os outros contribuam voluntariamente para o nosso bem-estar. E, por outro, nos mostra como receber a mensagem dos outros de maneira a aumentar as nossas chances de contribuir voluntariamente para o bem-estar deles” (Rosenberg, p. 13).

Portanto, o início de uma fala autêntica passa por saber as nossas necessidades do momento e por saber pedir ao outro aquilo que, nas palavras de Rosenberg, “pode tornar a vida mais maravilhosa”. E passa por saber ouvir, por aprender a escutar, empaticamente, quais são as necessidades da pessoa que está falando. E o mesmo movimento de conexão pode ser feito internamente, procurando responder, por exemplo, a pergunta: “O que eu preciso nesse momento? ” E a resposta poderia ser tão simples como tomar água ou mais complexa como necessitar de apoio de alguém (um amigo, uma pessoa próxima) em uma situação específica.

Porém, não somos ensinados a pensar em termos de necessidade e muitas vezes a linguagem se torna violenta com julgamentos, críticas, rótulos direcionados aos outros e a nós mesmos.

“Infelizmente, descobri que pouquíssimas pessoas são ensinadas a expressar as próprias necessidades. Em vez disso, somos ensinados a criticar, insultar e nos comunicarmos de um modo que nos distancia uns dos outros. Em consequência, não conseguimos encontrar soluções para os conflitos. Em vez de ambos os lados expressarem as próprias necessidades e compreenderem as da outra parte, todos entram numa disputa para ver quem está certo. E é bem provável que isso termine causando várias formas de violência verbal, psicológica ou física – e não a solução pacífica das diferenças” (Rosenberg p. 17-18)

A CNV vem sendo usada como uma forma eficaz para a resolução de conflitos entre partes que se desentendem como casais, famílias, grupos e até mesmo países, para a mediação dos conflitos e instauração da paz. Claro que uma mediação pode vir a ser mais ou menos difícil, mas, em essência, ela passa por permitir um espaço e um tempo para que as partes conflitantes passem a se ouvir empaticamente, a falar autenticamente e na resolução a partir do atendimento das necessidades de ambas.

 

Texto de Felipe de Souza. Psicólogo e praticante na Daissen Ji. Escola Soto Zen.

 

 

 

 

 

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