Um Metro Quadrado, Apenas

 

Uma vez me perguntaram “o que é ser monge? ”, em segundos surgiram algumas possibilidades de respostas e o que saiu foi que “ser monge é buscar a verdade (última) e encontrá-la”. Quem perguntou pareceu ficar satisfeito com a resposta, pois não perguntou mais.

Quando uma monja ou um monge coloca todo o seu corpo na forma da flor de lótus, envolvido pelo kesa1, sentando-se sem nada fazer em zazen shikantaza2, é neste lugar, aparentemente imóvel, onde os caminhos se abrem para a verdade sobre todas as coisas. Esse é um lugar de aprofundamento e expansão simultâneos.

A experiência mais profunda do monge é a de desprender-se completamente dos pensamentos e emoções cristalizados em forma de crenças (certezas, falta de dúvida) em seu próprio corpo e mente e no corpo e mente das outras pessoas também. Tudo o que foi herdado e aprendido será visto de forma relativa, não intelectualmente apenas, mas com o corpo. O corpo inteiro terá que chegar à verdade e ele só chegará nesse ponto deixando-se transformar em um movimento de abertura sem precedentes, sem fim e sem objetivo. Esse movimento sempre existiu, nunca deixou de existir, não tem início e não tem fim. Nós, e todas as coisas, participamos dele, somos ele.

Todos nós surgimos neste mundo a partir de uma relação social de apego necessária. Nascemos dentro de um pequeno universo onde seres concebem novos seres e, com esses, desenvolvem profundos laços afetivos e emocionais, que também são chamados de laços consanguíneos ou carnais. Por um lado, é imprescindível que alguém cuide do bebê recém-nascido até a idade adulta, por outro lado essa relação gera complexidade nos pensamentos, nos movimentos físicos e emocionais, que precisará ser entendida como alguma coisa a ser completamente transcendida nesta vida. Nas relações de família também existe gratidão, aprendizagem, carinho, realização e profunda empatia, no entanto, também esses sentimentos e todos os outros sentimentos serão ultrapassados, sendo desfeito o nó do apego (e da repulsa), por aquele que faz o voto de despertar nesta vida, o monge e a monja, em sua experiência diária.

A experiência de desprender-se completamente de pensamentos e emoções fixados ao corpo e à mente, desde o princípio dos tempos até o passado recente, é ter desobstruído em si mesmo o caminho, o satori3, para sempre. Esse “para sempre” é o sentido de “desprender-se completamente”. O monge, depois de ter aceitado sua insatisfação com sua própria existência, encontra uma centelha intuitiva, uma profunda confiança de que há uma saída, um fim para toda a ignorância sobre a existência. Então é assim que ele coloca o pé na estrada e avança, deixando que saiam de si as impressões deixadas pela família e pela sociedade, o que significa livrar-se da ideia de um si mesmo, de um eu, de um ego. Essa ideia de um eu é um obstáculo à realização da verdade. Quando dela nos liberamos, experimentamos a consciência de todas as coisas, não estamos mais limitados a uma única consciência.

Quando o monge ou a monja se libera dessa maneira, experimenta simultaneamente a liberação de todos os seres, de todas as outras pessoas, porque aqui os nossos olhos não veem mais pelo apego e desapego, simplesmente essa perspectiva não existe mais, pois já não há objetos para se apegar, e já não há um ser, não há um eu que se apegue a alguma coisa. Experimentamos Shunyata4, a liberdade sem limites que, portanto, é de todos.

Então, o monge ou a monja, quando se senta e nada faz, após ter envolvido seu corpo com os ensinamentos dos budas de todos os tempos e assim se entrega, completamente, sem obstáculos na mente, necessita de apenas um metro quadrado, como me disse um velho mestre no Japão.

 

    Texto de Monge Seigen, aluno de Saikawa Roshi. Escola Soto Zen.

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1. Kesa: o manto de buda que as monjas e os monges costuram para si.

2. Zazen Shikantaza: um estado físico e mental sem limites, livre de uma forma específica.
3. Satori: realização espiritual.

4.Shunyata: nenhuma consciência, vazio.