O Sesshin Não é Sobre Mim, Meus Desejos e Minhas Comodidades. É Sobre Servir!

 

“Ser significa ser para o outro, e, através dele, ser para si”. 

Mikhail Bakhtin, filósofo russo

 

Eu havia iniciado há alguns meses no Zen quando ouvi o Monge Genshô falar sobre as oportunidades que o Sesshin¹ apresentava. “São alguns dias de grande oportunidade” dizia ele, “vários Zazen seguidos podem abrir um espaço de silêncio em nossas mentes”. Fui para meu primeiro retiro com grandes expectativas de obter alguma progressão na prática, algo que pudesse dar um impulso e transformar para melhor minhas práticas do dia a dia. Aconteceu que fui colocado como Jikido² e vi todas minhas ambições caírem por terra.

Naquele tempo eu não possuía celular e tinha que marcar o tempo do Zazen em um relógio analógico. A cada quinze minutos eu olhava para o relógio. Sair da sala, tocar o Taiko, tocar os sinos, voltar pra sala, limpar o altar, trocar as flores, velas e incensos, falar com o Jisha³… Enfim, pouco tempo sentado e muito tempo andando de um lado para o outro tendo que quebrar o silêncio. Lembro que pensei que o Sesshin havia sido muito ruim e que talvez em outro eu pudesse obter os resultados desejados. Este outro nunca veio, pois eu sempre tive alguma função nos retiros.

Levei muitos Sesshins para entender que isto não tem nada a ver comigo, não é sobre mim ou minhas possibilidades de obter algo, de aumentar minha capacidade de foco, de ter uma boa prática e conseguir ficar imóvel ou sobre eu ficar em silêncio e adquirir algumas experiências. Não é para eu sentar na frente do Sensei e dizer, “atingi um Kenshô”. Não sentamos por nós ou para nós, sentamos por todos os seres, assim sendo, nada do que fizermos ou imaginarmos como conquista nos pertencerá.

O Sesshin é sobre os outros, é sobre eu estar a serviço dos outros, é sobre servir. Não devemos confundir servir com ajudar ou ensinar. Ajudar pressupõe força e poder, quem ajuda está, de alguma forma, em uma posição de superioridade em relação àquele que recebe a ajuda. É portanto uma posição de desarmonia. Quem ensina também se coloca muitas vezes como superior, como alguém detentor do conhecimento que se dispõe a ensinar os ignorantes. Existe muita arrogância na benevolência disfarçada de ajudar e ensinar.

Servir também não significa ser subserviente, este último é aquele que tem em seus atos a natureza da adulação ou bajulação, enquanto o primeiro se coloca humildemente a serviço e entende a natureza das relações. Quem serve sem ser subserviente muda sua consciência e sua percepção e compreende que servir não significa colocar-se como inferior, enquanto o subserviente sente-se menosprezado e busca através da bajulação o reconhecimento.

O Sesshin é o momento para eu me colocar à disposição para o treinamento do outro e isso pode significar que muitas vezes ficarei com o zafu menos adequado, o zabuton mais fino, o local mais quente e até mesmo um local onde não haja uma parede, mas sim um janelão aberto para um jardim, onde a quantidade de distrações pode ser incontável ou mesmo tenha que sentar de frente para as costas de outro praticante.

Quando temos funções dentro do Sesshin, algumas vezes podemos imaginar que estamos deixando de sentar e em razão disso, deixando de praticar. No entanto, se olharmos para as estas dificuldades e para as funções como um momento de doação e de entrega poderemos verificar que nossa mente pode mudar significativamente quando estamos servindo.

Se alcançarmos o entendimento de que o retiro não existe para uma realização pessoal, poderemos apreender que a vida também não é sobre nós. Não estou neste planeta por mim, para eu evoluir ou para eu aprender.  Minha existência só se justifica à medida em que esteja a serviço do outro, como o Bodhisatva, que abre mão de seu despertar para libertar os outros seres.

Nossa dificuldade no entendimento do servir vem do fato de que toda nossa educação é voltada para a individualidade, para conquistas pessoais como nosso próprio enriquecimento e conforto, uma vida hedonista voltada para a satisfação dos desejos e caprichos do ego, e quanto mais adultos, mais ensimesmados ficamos.

Nossa experiência particular de uma existência independente e separada de todo o universo está na base de nosso sofrimento. Devemos sair de nós mesmos, abrir mão de nossa singularidade e olhar para o outro. Quando realizarmos este entendimento, nossos problemas desaparecerão ou ficarão muito menores e insignificantes. Quando nossa atenção está voltada para o outro e seu bem-estar, não há lugar para arrogância ou prepotência. Se me coloco à disposição de servir por amor e reconhecimento do outro, como haverá espaço para discussões, para a violência, para a agressão, para os conflitos e guerras? Estas coisas acontecem quando nossos interesses e desejos se sobrepõe à vida dos outros seres e fazemos de tudo para concretizá-los.

Uma das maiores questões da humanidade é sobre o sentido da vida, mas normalmente as respostas vão ao encontro de realizações pessoais como desenvolver-se, aprender, crescer, evoluir e tornar-se melhor. O sentido da vida é a própria vida, é estar vivo, mas se isso não parece suficiente, talvez devêssemos pensar que o sentido da vida somos nós quem damos e me parece que o sentido da vida seja oferecer ao outro um momento de vida melhor do que ele teria se nós não existíssemos. Se a vida boa fosse a vida de riqueza e prazeres pessoais, não teríamos tantas pessoas ricas e famosas sofrendo com depressão ou ansiedade e recorrendo às drogas para preencher seus vazios existenciais.

A vida que vale a pena ser vivida, a vida do Eterno Retorno de Nietzsche, deve ser a vida a serviço do outro, pelo desenvolvimento e felicidade do outro, pela liberdade do outro. A vida de Bodhisatva.

 

Texto de monge Chûdô. Monge na Daissen Ji. Escola Soto Zen.

 

  • Sesshin, é a união de duas palavras, (摂生) Sessei, que significa cuidado, asseio, limpeza e (心) Shin, que neste contexto significa mente. Sesshin, portanto é um momento onde, através de uma prática intensa de Zazen, poderemos limpar ou cuidar da mente.
  • Aquele que marca o tempo do Zazen e cuida do Zendô.
  • Nos Sesshin serve como secretário do Mestre.

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