O Insigt Sobre As Três Joias

Certa vez, durante um encontro de prática Budista, estávamos todos os praticantes aguardando orientações para adentrarmos ao Espaço específico onde a Prática se daria. Nesses lugares, é comum haver exposições de livros, adereços, comida, enfim, artigos de consumo para que os mais curiosos e interessados possam desfrutar. Chamou-me a atenção, pelo título que considerei apelativo a princípio, mas que, todavia, me identifiquei, o livro “Budismo para pessoas ocupadas”. Inevitavelmente, adquiri.

Logo de início, o autor narra que em sua primeira visita a um templo Budista, o Lama responsável pela prática perguntou aos presentes: “O que é ser ‘Budista’?” Alguns arriscaram respostas como: “Buscar a iluminação”, “Buscar a compaixão”, “Meditar”, enfim, várias tentativas que foram suplantadas, quando um dos praticantes mais experiente respondeu: “É buscar refúgio nas Três Joias”. Essa frase penetrou em minha mente de tal maneira que interrompi a leitura e dei-me ao precioso momento da contemplação, reflexão.

Definir as Três joias, em um primeiro momento, pode ser uma tarefa fácil, mas como tudo no Budismo, é apenas aparentemente fácil. Isso porque todo entendimento possível para um Budista, advém da prática. É preciso ter prática para o entendimento, o próprio entendimento é a prática. A prática é o entendimento experenciado, assim, a prática é o entendimento em si. Vou explicar melhor. O Budismo se apropria de uma ferramenta muita valiosa e rica: a experiência que conduz ao Insight. Muitas definições e conceitos se manifestam como epifanias, apresentando-se como uma euforia genuína, uma descoberta instantânea rodeada de maior clareza, após a prática da meditação, por exemplo. De repente… “Eureca!”

Como os insights são comumente obtidos como resultados da meditação, esta é, se dúvidas, a prática comum a todas às Escolas do Budismo. Mas isso não define o Budismo em si, como narrado acima. Várias outras doutrinas de natureza espiritual e religiosa também praticam meditação, não sendo por isso Budistas. Porém as Três Joias, caracterizam o alicerce da Doutrina de Buda. Assim, ao me deparar com a narrativa do livro supracitado, me incorreu a necessidade instantânea de refletir sobre a importância de se “Tomar refúgio nas Três joias”, como buscar orientação e proteção, tal qual a expressão significa.

As Três Joias são: O Buda, o Dharma e a Sanga. Todavia, suas definições ultrapassam todo o universo das palavras. As Três Joias são indicadores profundos de um modelo de conduta e mente equilibrados. Embora toda e qualquer palavra conduzida na tentativa de síntese desses três grandes condutores, seja em vão e limitada, vale a pena dissertar sobre seus valores de infinita grandeza.

O Buda. Nesse sentido, o Buda é a fonte de inspiração onde tudo começa. O Buda não representa aqui uma pessoa, não podemos associar ao príncipe Siddharta Gautama, que alcançou a iluminação e se tornou um Buda, simplesmente. O Buda é um ideal de mente. Uma mente liberta de tagarelices e dispersões. Uma mente que percebe sua conexão com todas as formas de vida e existência e se manifesta na Compaixão. O Buda é de fato, a fonte genuína de nossa natureza, a Natureza Última. Não se trata de uma condição de espaço e tempo. O Buda não é um lugar onde almejamos chegar e nos estabelecer. O Buda somos nós. Apenas nos esquecemos disso ao nos olharmos com olhos deturpados da natureza egóica, dotada de ilusões e ignorância.

Uma vez sendo o Buda a mente esquecida, porém inerente a todo ser, a natureza dessa mente pode ser revisitada. Essa natureza não está em nós. Nós a somos. Precisamos, todavia, nos relembrar disso e, de fato, pode-nos ser valioso contarmos com ensinamentos e orientações precisas para esse percurso. Assim, como um farol que guia o navio no oceano, o Dharma o é. O Dharma consiste em preceitos traduzidos por um homem que viveu a riqueza da própria experiência em si e a transmitiu a todos de forma indistinta. No entanto, não se trata de leis idealmente criadas, mas sim percebidas pela prática meditativa intensa, que se propôs a analisar os fenômenos da existência em profundidade e minuciosamente. O Buda, homem manifesto, ao vivenciar a beleza de insights mais profundos, ao invés de resguardá-los como experiências em si mesmas, se propôs a orientar e conduzir a outros seres humanos, para o caminho da iluminação. O Dharma é a orientação da prática para o caminho da felicidade última, baseado nas leis cósmicas naturais, das quais nos desvinculamos à medida que assumimos nossa ilusão egoísta. É em essência, ensinamentos, de um homem comum, dotado de um coração compassivo e corajoso, que olhou para a própria angústia existencial de maneira questionadora, buscando a verdade a partir da própria inquietude.

Há um ditado de origem africana que diz: “Se você quer ir mais rápido, vá sozinho. Se quer ir mais longe, vá em boa companhia.” Essa frase define em poucas palavras, a grandiosidade da Sangha. O caminho de Buda, orientado pelos dizeres do Dharma, é um caminho longo e tortuoso. É um caminho repleto de provações e testes, que nos exige conduta e vigia, rigor em tudo que se propõem. Um caminho fácil de ser abandonado, muitas vezes fadado à desistência. Contar com a compaixão dos outros, perceber nos outros a partilha das experiencias e a cumplicidade de propósitos nos ajuda a firmarmo-nos no percurso da busca. A Sangha é uma joia de preciosa. Apenas junto a ela nossas inseguranças se perdem, pois apenas junto a bons amigos, amigos de conduta e fé, percebemos com mais clareza a alegria e a preciosidade do Caminho.

O desafio de definição das três joias se justifica, pois tudo que se refere à Prática budista inicia-se nelas. Assim como no livro “Budismo para pessoas ocupadas”, o autor fez questão de iniciar com essa narrativa, o Buda, o Dharma e a Sangha são o princípio, assim como o próprio princípio criador. Discorrendo melhor, o Universo é uma grande mente desperta na qual todas as manifestações estão contidas. Toda descrição por trás de “iluminado” refere-se à capacidade de não conter nem ser contido, destituir-se de definições sobre si, mas ao mesmo tempo, perceber em si a manifestação de tudo que há. Essa é a Mente do Buda. Alcançá-la só é possível através de inspiração e prática, oriundas do Dharma e da Sangha. O Buda, o Dharma e a Sangha são inseparáveis, fontes de refúgio e amparo, estando sempre disponíveis aos dispostos.

Prostrações.

No Dharma, Gasshô.

 

Texto de Jule Amaral. Praticante na Daissen Ji. Escola Soto Zen.

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