Metta Bhavana: A prática do amor universal


É dito que a prática de
metta serve como um solvente que não só derrete as nossas impurezas mentais, mas também as daqueles ao nosso redor. “Metta” significa “bondade amorosa” em Páli, e “Bhavana” [bá-və-na] significa “desenvolvimento” ou “cultivo”. Ao praticarmos metta, podemos transformar inimigos em amigos, pois cultivamos de forma muito profunda o amor, a compaixão e a boa vontade.

Metta alimenta pensamentos corretos1 e, portanto, passamos a também agir cada vez mais de forma a causar o bem e a evitar o mal. Pensamentos e ações desse tipo são parte do Caminho Óctuplo, ou seja, do caminho para o fim do sofrimento. Ao, por meio de metta bhavana, cultivarmos uma mente pacífica e amorosa, estamos inevitavelmente nos aprofundando no caminho espiritual.

Em diferentes ensinamentos dos sutras mais antigos e de textos posteriores, os benefícios da prática são apresentados. Em termos psicológicos, diminuímos nossos estados de inquietação mental, tais como ódio, remorso, tristeza e preocupação. Já no campo social, tendemos a ter uma postura que traz paz e tranquilidade para aqueles com quem convivemos.

Na Daissen, o zazen está no centro de nossa prática, vindo até mesmo antes do estudo do Dharma. Por isso, Genshō Rōshi faz palestras somente após a prática formal em nossos zafus. É preciso a experiência de se sentar para, só então, ouvir o Dharma; de outra forma estaríamos falando apenas de teorias. No shikantaza, não temos um observador e nem um objeto observado, ficamos inteiramente no momento presente, somos um com todo o universo.

Assim, é preciso entender que metta é uma prática auxiliar de cultivo da mente e não algo para substituir o nosso zazen. Da mesma maneira que usamos, por exemplo, os oryokis para, por meio de todos os detalhes do ritual de alimentação, treinarmos nossas mentes a ficarem no presente, usamos a técnica de metta bhavana para purificarmos nossas mentes de todos os maus pensamentos e sentimentos e para nos auxiliar a desenvolver uma mente não discriminativa.

Uma mente treinada no oryoki é uma mente mais apta a se manter presente durante o zazen e em a nossa vida cotidiana; uma mente treinada em metta é uma mente mais capacitada a abrir mão de um olhar egocentrado sobre o mundo, assim como se torna mais calma e estável, facilitando a concentração. Todas as práticas estão conectadas e servem para nos guiar no Caminho.

1 “Correto” no sentido de seguir o Dharma, não causando sofrimentos ou diminuindo os sofrimentos o máximo possível.

Devemos praticar metta quando estamos com a mente o mais límpida possível, preferencialmente ao final de longos períodos de zazen. Trazemos à mente a pessoa por quem temos mais reverência, trazemos para a consciência todos os bons sentimentos que nutrimos por ela e desejamos que ela se liberte do sofrimento e das causas do sofrimento, que ela seja feliz e que esteja sempre em paz; em seguida, realizamos os mesmos processos com as pessoas e seres que temos mais próximos, que nos são mais queridos; avançamos então para os que nos são neutros, aqueles que não nos despertam nem bons sentimentos e nem aversão; por fim, chegamos aos que nos são hostis, aos que porventura já nos feriram ou prejudicaram, aos que nos desejam o mal. Nos esforçamos ao máximo para olhar a todos da mesma maneira.

De tal forma, transpomos as fronteiras que nos afastam dos outros e quebramos as barreiras que separam os que amamos dos que, até então, percebíamos como inimigos. A prática da bondade amorosa é a prática profunda da equanimidade e do desapego. Não deverá mais restar qualquer separação em nosso olhar, o nosso amor é de todos, sem distinção.

Um exemplo didático clássico2 diz para imaginarmos que estamos reunidos em um grupo formado por três pessoas além de nós: uma pessoa que amamos, outra por quem nutrimos sentimento neutros e, por fim, uma por quem sentimos aversão. Continuando a descrição da situação hipotética, somos cercados por bandidos que exigem matar uma das pessoas e nos colocam na posição de decidir quem deverá morrer. Provavelmente o mais comum para um não-praticante seria escolher que a pessoa hostil do grupo morresse. Mas nos enganamos se pensarmos que ao escolher qualquer uma das outras pessoas, estaríamos mais próximos do olhar de quem pratica metta. Mesmo se déssemos nossas próprias vidas em sacrifício, ainda assim, não teríamos alcançado a visão que quebrou todas as barreiras, pois ao nos sacrificarmos, ainda estamos enxergando uma separação entre nós mesmos e os outros. Somente quando olharmos a todos sem qualquer distinção e espalharmos metta, ou seja, a bondade amorosa, para todos, imparcialmente, incluindo até mesmo os bandidos, aí então a prática terá cultivado suficientemente o olhar correto.

Em uma etapa final, nossa metta não deve mais precisar de rostos ou personalidades para nos focarmos focar; devemos trabalhar para sentir a bondade amorosa se espalhando por todas as direções, chegando a todos os seres do universo.

Contexto no qual Buddha ensinou Metta Bhavana

É dito que, certa vez, monges estavam com medo de permanecer em um determinado local que, a princípio, seria excelente para a prática meditativa. Eles estavam ouvindo barulhos ameaçadores e desconfiavam que seres, talvez de outros reinos da existência, queriam lhes fazer mal. Buddha, então, ensinou para eles metta bhavana e recomendou que a praticassem com afinco ao retornarem ao local.

2 Buddhaghosa. Visuddhimagga: The Path of PuriBication.

Ao cultivarem uma mente transbordante de metta, sem precisarem emitir uma palavra ou recorrer a qualquer ação, deixaram de ser vistos como uma ameaça por aqueles seres que antes os assustavam e, assim, foram deixados em paz para praticar.

Outra narrativa aponta para o mesmo ensinamento. Buddha sofreu uma tentativa de assassinato quando um elefante enfurecido foi solto em sua direção. Buddha não se moveu e pediu para seus discípulos saírem da frente. Entrou em profunda concentração e passou a projetar uma enorme e poderosa onda de bondade amorosa para aquele animal. O elefante, então, parou bem em frente a ele e abaixou sua cabeça em reverência.

Essas histórias ilustram o poder da bondade amorosa não somente sobre a mente do praticante, mas também sobre aqueles que o cercam. É dito que o praticante de metta cria em torno de si um ambiente de alegria e relaxamento. Inimigos se convertem em amigos, a fúria dá lugar à calma, a cobiça é transformada em generosidade.

Quando Kakuji e eu praticávamos com monges Theravada da Tradição da Floresta, um mestre nos contou que quando se dirigem para as florestas (pois em tal tradição, os monges em treinamento moram nas matas e só vão até as vilas para pedir alimentos), os monges caminham gerando e propagando metta e que isso serve, além de tudo, como uma proteção contra animais selvagens e ferozes. São muitas as histórias de monges tailandeses que diante de um tigre selvagem, por exemplo, no lugar de tentarem se esconder ou fugir, se sentaram (ou caminharem) em estado de profunda meditação e geraram bondade amorosa com grande intensidade. Quando abriam novamente seus olhos, tempos depois, o tigre havia ido embora sem os ferir.

O ponto central, para nós, em tais narrativas é perceber que metta é vista na tradição budista não apenas como uma prática que altera a própria mente, mas que, potencialmente, ultrapassa as barreiras individuais do praticante, influenciando o ambiente ao nosso redor e todos os seres com os quais entramos em contato.

Genshō Rōshi está introduzindo na Daissen esta prática, pois quer que seus alunos cultivem consciente e ativamente uma mente cheia de bondade, capaz de enxergar a todos sem qualquer distinção, sempre aberta para praticar o bem. Mesmo quando atacados por quem nos deseje o mal, devemos nos voltar para a prática de metta e desejar que tais pessoas sejam felizes, se libertem do sofrimento e das causas do sofrimento.

Karaniya Metta Sutra – Bondade Amorosa

 

Isto é o que deve ser feito

Por aquele que é hábil na bondade E que conhece o caminho da paz: Que seja capaz e íntegro,

Direto e gentil no falar, Humilde e sem arrogância, Contente e facilmente satisfeito,

Que não sinta o fardo das obrigações e seja simples em seu modo de viver.

Pacífico, calmo, sábio e habilidoso,

Não orgulhoso nem exigente por natureza.

 

Que não faça a menor das ações

Que, mais tarde, os sábios reprovariam.

 

Desejando: Com alegria e segurança, Que todos os seres estejam em paz.

Quaisquer seres vivos que existam, Fracos ou fortes, sem exceção,

Os grandes ou os poderosos, médios, frágeis ou pequenos,

Os visíveis e os invisíveis,

Aqueles que vivem perto ou longe,

Aqueles que nasceram ou ainda nascerão — Que todos os seres estejam em paz!

 

Que ninguém engane a ninguém,

Ou despreze qualquer ser, seja qual for seu

estado.

Que ninguém, por raiva ou má vontade, Deseje o mal a ninguém.

 

Assim como uma mãe protege com a própria vida

Seu filho, seu único filho,

Da mesma maneira, com um coração sem limites,

Deve-se cultivar bondade amorosa por todos os seres vivos.

 

Espalhando bondade por todo o universo, Elevando-se aos céus,

Descendo às profundezas,

Em todas as direções, ilimitadamente, Livre de ódio e má vontade.

 

Quer esteja em pé, andando, sentado ou deitado,

Livre de sonolência,

Deve-se manter esta lembrança. Isto é dito ser a sublime morada.

 

Ao não se apegar a visões fixas,

Aquele de coração puro, com clareza de visão, Liberto de todos os desejos sensoriais,

Não nascerá novamente neste mundo.

 

Texto de Monge Muryo 無量 e Monja Kakuji 覚慈. Monges na Comunidade Zen-Budista Daissen. Escola Soto Zen.

 

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