O mundo canta em acordes inesperados. Pássaros e carros, folhas dançando sob o vento nas árvores. Um degradê de cores no céu, sempre vivo e mudando, uma valsa de tonalidades que nunca termina e nunca começa, apenas é.
Todas as camadas de pensamentos criam histórias que parecem muito verdadeiras.
Palavras e conceitos que se erguem na mente como uma floresta de realidade na qual ficamos perdidos sem perceber estar. Então andamos e corremos, criamos trilhas, cavamos e construímos, sempre em busca de algo que não conseguimos explicar.
Mas a floresta de pensamentos e conceitos da mente não é real.
É preciso estar muito calmo para perceber isso. Não estar envolvido com as ideias que surgem, não estar engajado em realizá-las ou fugir delas. Nada pode nos afastar daquilo que somos, por mais que momentaneamente esqueçamos nossa própria natureza.
Nada está separado, além dos nomes que são criados para a separação. Todas as ideias que surgem sobre os “outros” são apenas frágeis teias mentais que aparecem e desaparecem conforme a atenção que lhes oferecemos. Podemos ficar presos nelas por tempo indeterminado ou apenas reconhecer que essas teias nunca existiram para além de um sonho.
Não há nada a ser mudado. Nada que precise aparecer ou desaparecer.
Talvez seja mais fácil ver a primavera como um processo natural, com suas flores se abrindo e os perfumes se misturando na atmosfera, com suas cores e sons vibrantes. Mas o outono e seu profundo amarelar também é natural, sua cadência de folhas sobre o chão que levará a galhos secos e contorcidos ao vento. Tudo faz parte da mesma coisa. Nada começa ou termina. Nada precisa ser detido ou acelerado.
No dia a dia, atados à cadeia de pensamentos, parece não haver realidade que não seja conceitual. A certeza palpável de uma identidade parece genuína, acima de dúvidas ou questionamentos. Mas isso também é só uma ilusão.
Quando nos permitimos ver os pensamentos como pensamentos, eles passam pela mente como nuvens que se dissolvem no infinito do céu. Não são bons ou ruins, apenas a natureza se comportando conforme a estação.
Mas não existe nada que nos restrinja a eles. Não de verdade. Não somos as imagens que se formam na mente, nem as mais grandiosas, nem as mais terríveis.
Somos o som dos pássaros ao amanhecer. Seu voo silencioso em suas trilhas orquestradas no firmamento. Somos as pessoas despertando para trabalhar. Somos a sangha em zazen. Somos o silêncio profundo da madrugada e o barulho incessante de uma metrópole. Somos turbulência e pausa e nada é capaz de nos separar da imensidão sem fim, que é tudo o que existe.
Além de nomes e conceitos, de ideias e recordações, somos parte intrínseca de tudo o que é, além do dentro e do fora, do acima ou abaixo.
Estar aqui é tudo o que precisamos. Apenas reconhecer o que já somos, sempre fomos. Nunca houve uma floresta na qual estivemos perdidos. Exceto aquela que é imaginada nesse momento. Essa floresta não tem passado, ela não cresceu de semente em semente. É apenas uma miragem que parece conter sua própria história, mas essa história só surge se for pensada no agora.
Ela não está ali guardada, separada do agora e pronta para ser acessada. Nossa história pessoal só surge quando pensamos sobre ela, quando acreditamos e passamos a vivenciar e sentir.
Onde estão nossos pensamentos quando não estão sendo pensados? E os nossos sentimentos?
Onde está o eu quando não acreditamos estar experimentando-o?
Onde está o pensador do pensamento?
Quando um pensamento surge, parte-se do pressuposto que o pensador está ali, separado do pensamento, gerando-o de acordo com suas conclusões e observações sobre a realidade. Mas se pararmos para olhar o processo acontecer, vamos ver que não é assim.
Nunca houve pensador, exceto pelo pensamento sobre um pensador. Nunca houve separação, exceto pela imaginação de sermos separados.
Não há alguém com quem a experiência aconteça. Nunca houve alguém com quem uma experiência pudesse acontecer.
Houve apenas pensamentos sobre experiências. Pensamentos sobre um eu. Pensamentos sobre pensamentos.
Na vivência direta do presente, há apenas o agora, e este agora infinito não pode ser nomeado, dividido ou classificado. Só podemos reconhecê-lo, e esse reconhecer é ser.
Texto de Clarice Gudniak. Praticante na Comunidade Zen-Budista Daissen. Escola Soto Zen
