Quando vamos realizar uma cerimônia de Hossenshiki no Templo Daissenji, toda a sangha se prepara — anos, meses e dias — antes.
O caminho de busca do praticante por seu mestre, e o de aceitação do noviço por seu mestre, são momentos que precedem a “batalha do Dharma”. Não há luta, mas sim um desafio, um “conflito” forjado para testar o monge noviço, sua mente e sua determinação.
Todos esses instantes convergem para um ritual repleto de “marcações”, convenções; como uma peça de teatro. E, como em um bom espetáculo, quando a cerimônia começa, não devemos sentir nada além do momento presente e da harmonia entre os participantes.
Para o grande encontro, um cronograma é estabelecido com antecedência. Monjas e monges de todo o país são convidados, e os praticantes leigos se regozijam com a oportunidade de compartilhar o Hossenshiki de mais um de “nossos” monges.
Há muita poesia em tudo — a maior parte, sem palavras. Todo o cuidado com o tempo para treinamento e ensaio é afinado pelo nosso diapasão central: o zazen.
O dia começa como em um mosteiro: todos em shikantaza. E assim, os sinos marcam o início do treinamento, o moppan e o denshō. O som convoca a assembleia de monges, em suas distintas funções, a agirem juntos, em uma coreografia de um só ser, para fazerem do hattō, da estátua, da espada, do livro, do incenso com seu aroma específico, uma só via em direção ao despertar.
Em seguida, Monge Muryo, com sua mente límpida – já tendo feito um teishō sobre o Dharma no dia anterior, ancorando toda nossa prática no “apenas se sentar”, shikantaza –, inicia o Hossenshiki. Ele anuncia o “tema”, tornando presente nosso grande mestre Dōgen Zenji. Suas palavras, sua seleção da obra do mestre, toda a poesia contida em um grão de areia; do pai para o filho, do mestre para o discípulo, do Monge, naquele momento, para todos os presentes. As lágrimas escorrem. É realmente auspicioso poder compartilhar essa prática, que é a própria vida.
As monjas e monges presentes fazem perguntas sobre o Dharma. Sentado com o bastão, o Monge responde. Nossa mente vislumbra a imensidão do Dharma, seus infinitos portais.
Então, ao som da Baika, o tempo revela-se vazio, mentes e corpos são abandonados e, unos em todos os tempos e direções, somos Dōgen, somos despertos, somos Buddhas.
Novamente Monge Muryo, um bodhisattva, nos convida a dissolver tempo e espaço e a sermos iluminados juntamente com toda a Terra.
Agora o momento é de congratulações, e versos são oferecidos ao Shusō. Sua companheira de vida — ou vidas —, “nossa” monja Kakuji, banhada em toda a sua compaixão infinita, nos contagia com a emoção mais pura do sentimento de entrega. Ela coloca em palavras o que testemunhamos no convívio com Muryo San: entrega sem limites. Esse é o brilho da mente do Monge, que ilumina toda a Sangha.
A tradição, a cerimônia e seu ritual, um grande rio, como o rio Ganges… somos arrastados pela correnteza do Dharma e, em Sangha, desaguamos em Buddha.
O que é um Hossenshiki, então? Uma nova oportunidade, um novo passo no caminho.
Texto de Marília Fushin. Praticante na Comunidade Zen-Budista Daissen. Escola Soto Zen.
