Aprofundando-me no Caminho

 

Quando comecei a estudar o Zen, senti como se tivesse uma parede à minha frente, imensa, opaca. Pareceu algo inesperado, porém interessante: não podia parar de olhar para a parede. Olhava para todos os lados e, de repente, vi uma janelinha, tão pequena, pela qual era possível ver somente com um dos olhos. Quando olhei pela janelinha, ou seja, os primeiros ensinamentos – como dukkha, anicca e As 4 Nobres Verdades, tive um vislumbre de uma nova realidade, algo que não podia mais ignorar, era transformador. Um caminho novo se abriu.

Então, comecei a escavar a “parede” e ampliar um pouco mais a janelinha, que se torna um pouco maior a cada dia. A forma como escavamos é pelo zazen, pelos ensinamentos dos mestres e pela sangha. Cada nova leitura, novo ensinamento, os cursos, experiências, novas e revividas, o exemplo dos colegas de sangha, dos monges, tão compassivos e cheios de sabedoria, uma alegria quando temos a chance de interagir com eles, e, por fim, o nosso mestre, que nos presenteia generosamente com inúmeros vídeos, palestras nos sesshins, nos teishos de sábado de manhã pela Daissen Virtual, ou individualmente nos dokusans, são todos momentos em que podemos absorver um pouco da sua imensa sabedoria.

Na nossa vida do dia a dia, os preceitos são um excelente guia para agirmos no mundo.  Começar a entender os ensinamentos de Buddha e aplicá-los na vida prática. Associados ao Caminho Óctuplo, os preceitos nos ensinam que devemos estar atentos o tempo todo, senão podemos cometer uma injustiça e causar sofrimento a alguém ou a algo. Nos ajudam a refletir sobre a forma de pensar, de falar, de agir. E, o que é ainda mais valioso, nos dão um caminho, um norte, um método. E nos tornamos capazes de:

Começar a ver a impermanência em tudo e, por isso mesmo, aproveitar os momentos bons e suportar os momentos difíceis, sabendo que ambos vão passar;
Começar a fazer planos e, se derem certo, comemorar, e, se derem errado, aceitar, compreender e refazê-los, sem achar que a vida está contra nós ou que o mundo vai acabar;
Começar a olhar a vida com outros olhos, com olhos de enxergar cada momento com sua preciosidade, porque sabemos que não volta mais e que a beleza e o sagrado estão nas pequenas coisas, na verdade, em tudo. Pode ser uma gota de orvalho, uma nesga de sol saindo de uma nuvem, o olhar de um bebê, uma flor se abrindo, um aroma que nos transporta para o passado;
Começar a sentir incômodo quando algum sentimento ruim se apossa de nós e procurar descobrir a raiz de forma a tirar mais um “gancho” de nós. Aprender e ir em frente, sabendo que os sentimentos ruins podem voltar a qualquer momento e temos que seguir vigilantes;
Começar a aprender a esperar, seja por uma notícia importante, pela compreensão de algo complicado, de não criticar alguém só porque não está vendo o que nos parece óbvio, como se tivéssemos todas as respostas;
Começar a nos pôr no lugar do outro, ser menos egoístas, sentir compaixão, sempre duvidar do que vemos e não julgar. Quando esperamos, sem julgamento, certamente veremos que tem uma explicação para determinado comportamento, provavelmente bem diferente do que está aparente;
Começar a ver o sofrimento do outro e sentir compaixão, mesmo que seja alguém gritando conosco e que esteja completamente errado, sob nosso ponto de vista, é claro;
Começar a ser menos impulsivos e esperar para ter mais elementos antes de tomar uma decisão, não agir sob forte emoção e tomar atitudes precipitadas, que poderão gerar sofrimento aos outros e a nós;
Começar a não expressar nossa opinião somente para mostrar que temos uma, que estamos certos, ou até para provocar as pessoas.

Do ponto de vista filosófico, é olhar para a vida e sempre duvidar do que vemos. No Zen, nada é o que parece, temos tantos filtros mentais, emocionais, condicionamentos, que o ideal seria olhar como se estivéssemos vendo pela primeira vez. E, mesmo que por ignorância, cometamos erros, enfrentemos a retribuição cármica de nossos atos. Então, a cada vez que conseguirmos descobrir um pensamento, uma fala, uma ação ou uma atitude errados, devemos repensar nosso comportamento para evitar cometer o mesmo erro. E nos arrepender, sinceramente, de forma que possamos seguir em frente com mais leveza, mesmo sabendo que o tempo não volta e que a culpa não nos serve de nada. Mas, reconhecer, repensar e mudar nossa maneira de agir. Assim, o arrependimento e a mudança de atitude vão se refletir no futuro.

Falando das dificuldades no caminho, especificamente os três venenos, a ganância, a raiva e a ignorância, atrapalham o nosso circular pelo mundo e impedem que avancemos no caminho do despertar. Os preceitos nos auxiliam a deixar o piloto “automático” e ligar o modo “manual”, nos servem de guia para podermos começar a ver, ouvir, sentir, pensar e agir no mesmo mundo de sempre, mas que se transforma com o tempo e nossa nova vivência dá ao mundo muito mais significado.

Nesse mundo está a prática constante do zazen, fazer da vida um zazen contínuo e nunca esquecer de agradecer. Afinal, se estamos aqui hoje é porque seres se dispuseram a abrir mão de sua vida para seguir o Dharma, entraram na correnteza antes de nós, nos deixaram tantos ensinamentos e experiências valiosíssimos, que devemos viver em gratidão infinita o tempo todo e contribuir para os que virão depois de nós.

Mais importante que tudo isso, é saber que vamos errar, inúmeras vezes, mas que justamente os preceitos vão nos dar um norte para voltar atrás, aprender com os erros e recomeçar, não de vez em quando, mas inúmeras vezes ao dia. E que isso nos torna mais humanos e mais responsáveis, porque tivemos acesso a um conhecimento tão transformador. E mais humildes porque sabemos que temos um longo caminho pela frente e que nosso trabalho é árduo, nossa função é ajudar a todos os seres a despertarem também, sabendo que ainda estamos apenas começando no caminho.

Aprofundar-se nos preceitos é entrar na correnteza, sem parar nas curvas do rio, por mais quentinhas e confortáveis que elas possam ser, momentaneamente. Para resumir em uma frase, é nos soltarmos na correnteza e entrar na vida no modo manual, tendo a mão do nosso mestre a nos ajudar a seguir no caminho, é Ser a correnteza.

Texto de Maria Teresa Stefani. Praticante na Comunidade Zen-Budista Daissen. Escola Soto Zen

 

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