Percepções progressivas em relação à vacuidade – Sunyata

Mestre Joaquim Monteiro, no texto Mente e Consciência na Perspectiva do Budismo, explicitou que as evoluções de nossas percepções teóricas, muitas vezes, acontecem progressivamente em relação ao aprofundamento de nossa prática de zazen. Este artigo se propõe a acompanhar a evolução das percepções que tive desde 1996 quando comecei a frequentar os sesshins zen-budistas. 

Em julho de 1996 subi a montanha do Mosteiro Zen-Budista Morro da Vargem (MZMV) em Ibiraçu – ES e, desde esse período, na época de Carnaval, passava em retiro. Nos dois primeiros anos fazia somente o Sesshin de Carnaval, mas após 1999, comecei a fazer dois ou três sesshins por ano.

Eu fiquei pensando muito em um verso que era recitado no zendô, denominado Verso do Okesa, no final do segundo período de zazen, perto das seis horas, antes de irmos para o hatô:

A forma é o vazio, 

o vazio é a forma,

vestimos agora os ensinamentos do Thatagata,

para libertarmos todos os seres.” 

 

Esse verso sempre me intrigou muito, pois pensava que a igualdade do vazio e da forma era algo difícil de ser alcançado. Além disso, a “forma” é algo que eu compreendia, mas em relação ao “vazio” tinha uma dificuldade maior. No MZMV havia diversas figuras de circunferência não fechadas desenhadas por grandes mestres e eu pensava que poderia haver uma ligação com essas figuras.

Antes de muitos sesshins, subia a estrada íngreme de 2,5 quilômetros para chegar propriamente no mosteiro. O caminho é muito bonito, cheio de passarinhos, outros pequenos animais e uma paisagem exuberante para ser admirada. Também há diversas placas recomendando aos caminhantes aproveitar a natureza e se manter em silêncio para aproveitar o momento presente. Um ponto obrigatório de parada era em frente a uma madeira, onde estava escrito os seguintes versos de Dogen:

Estudar budismo é estudar a si mesmo,

estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo,

esquecer-se de si mesmo é estar uno com todas as coisas.” 

 

Ficava parado na floresta admirando estes versos e pensando que demoraria para compreendê-los e que intuitivamente eles estariam ligados com os versos do final do segundo zazen. A compreensão dessa ligação entre estas duas situações demorou décadas para acontecer.

A questão do vazio ou vacuidade ou sunyata já estava constantemente presente no mosteiro. O mestre Daiju Bitti, abade do MZMV nos falava sobre ela em alguns zazens e também em algumas ocasiões onde explanava um pouco sobre o conceito de vazio em entrevistas dadas a jornais e televisões do Estado do Espírito Santo.

Ler sobre algo, pensar sobre algo e compreender sobre o mesmo assunto são experiências muito diferenciadas. No livro “Mente Zen, Mente de Principiante” há um texto sobre a vacuidade, que li e sublinhei algumas linhas, tais como, “A compreensão budista da vida inclui tanto a existência quanto a não existência” e “Concentrando-se na respiração, você esquecerá a si próprio e, esquecendo-se de si mesmo, você se concentrará na respiração”. Mas a compreensão dessas frases precisa de um aprofundamento no zazen que, naquele tempo, ainda não havia atingido.

A partir de julho de 2003 a minha prática começou a se aprofundar, pois no Carnaval desse ano o mestre Daiju convidou-me para fazer o meu primeiro Jukai. Eu já chegava mais cedo no MZMV e saía dois dias depois, mas esse chamado envolveu algo maior. Para começar, todo praticante que era convidado para fazer Jukai (investidura leiga) tinha que chegar quatro dias antes do sesshin para participar de uma oficina de rakusu. Nessa oficina, em três dias ficávamos exclusivamente costurando o nosso rakusu, ajudados e orientados pelo mestre e também por uma ou outra ordenada que já tinha feito diversos rakusus.

A cerimônia de Jukai, no dia 5 de julho de 2003, foi linda e significativa. Lembro principalmente da recitação dos 16 grandes preceitos e também do momento principal quando recitávamos os versos do Okesa com o rakusu na cabeça. A emoção desse momento foi marcante e também ocasionou um aprofundamento na prática do zazen fora do MZMV. Fez aumentar o meu interesse em desvendar o que era a vacuidade e me aprofundar nos versos de Dogen.

Alguns anos se passaram e tive a oportunidade de encontrar um livro de Thich Nhat Hanh denominado “O Coração da Compreensão”. Ele é uma tradução e uma explicação de cada parte do Sutra do Coração que recitávamos em todos os sesshins.

A leitura e a meditação sobre esse livro, desencadeou uma abertura para a compreensão desse sutra tão importante para o Zen-Budismo. Lembro-me que antes dele, me sentia incomodado recitando algo que não entendia nada e numa língua muito difícil para mim.

Thich Nhat Hank, ou Thi, como é chamado carinhosamente pelos seus discípulos, explica verso por verso desse sutra em uma linguagem poética muito linda. Também esclarece a ligação entre esse sutra e o não eu. As suas metáforas são extremamente profundas e belas. Como exemplo dessa compreensão profunda da vida, ele cita o caso da prostituta em qualquer lugar do mundo. A grande maioria das pessoas e, muitas vezes, a própria prostituta, acha que a situação existencial dela é compreendida olhando somente para ela mesma. Thi destaca que a prostituta está relacionada com as condições que fizeram com que uma mulher da classe social alta pudesse estudar, ter carreira e viver em boas condições. A situação de uma está relacionada intrinsecamente com a situação da outra.

Vivemos atualmente num mundo em que a sociedade tem plenas condições de alimentar e cuidar de todos os seres. Mas na realidade, existem pessoas que têm tudo em abundância (comida, habitação, educação, empregos) mas a maioria ainda vive em condições precárias. 

Thi nos convoca para assumir a responsabilidade que temos nessa situação tanto local quanto global: 

“Nós não estamos separados. Estamos indissoluvelmente inter-relacionados. A rosa é o lixo, e a não prostituta é a prostituta. O homem rico é a própria mulher pobre e o budista é o não budista. O não budista não pode deixar de ser um budista porque nós interssomos. A emancipação da jovem prostituta virá assim que ela puder ver dentro da natureza do intersser. Ela saberá que está carregando o fruto do mundo inteiro. E, se nós olharmos para dentro de nós mesmos e pudermos vê-la, nós carregaremos a dor dela e a dor do mundo inteiro”. (Thich Nhat Hanh: 2000, p. 60-61)

Uma parte do Sutra do Coração que sempre era muito difícil a compreensão era: 

 “Consequentemente, na vacuidade não há nem forma, nem sentimentos, nem percepções, nem formações mentais, nem consciência, nem olho, ou ouvido, ou nariz, ou língua, ou corpo, ou mente; nem forma, nem som, nem cheiro, nem sabor, nem tato, nem objeto da mente; nem âmbitos de elementos (dos olhos até a consciência mental), nem originações interdependentes e nem a extinção delas (da ignorância até velhice e morte); nem sofrimento, nem origem do sofrimento, nem extinção do sofrimento, nem caminho, nem compreensão , nem realização.” (Thich Nhat Hanh: 2000, p. 64)

A chave para a compreensão de todo esse parágrafo está no início da citação em que Thi coloca a centralização do conceito de vacuidade, pois são as características dessa noção e o que ela afirma: a não existência do eu e a interdependência de todas as coisas, que possibilitam compreender o texto todo. Portanto, nada possui existência em si mesmo.

É importante frisar aqui a importância das Três Joias do Budismo: o Buddha, o Dharma e a Sangha. O entendimento de cada um é fundamental: o Buddha como um ideal que devemos atingir, o Dharma como toda a escritura relacionada ao Budismo que devemos conhecer e absorver e a Sangha, como comunidade de prática, na qual a convivência com outras pessoas pode fortalecer a nossa tolerância e empatia. A união desses três elementos pode ser forte na construção e evolução do ser budista.

Enfatizei as Três Joias pois acredito que somente a partir da entrada na Daissen em setembro de 2022 é que comecei a vivenciá-las de modo significativo, porque no segundo semestre de 2021 descobri o Monge Genshõ na internet. Sua didática peculiar e clara nos ensinamentos me atraiu e comecei a ouvir algumas de suas palestras publicadas no Youtube. No final desse ano descobri a Daissen na internet e percorrendo o site pude descobrir que existe o CED (Curso sobre os Ensinamentos do Dharma), em três módulos diferenciados.

Nessa ocasião, pude ver detalhadamente o Módulo I com seus tópicos interessantes. Senti atração em cursar o mesmo. Não sendo da Daissen naquele momento, pedi autorização para cursá-lo. Os coordenadores desse módulo gentilmente não se opuseram à minha presença.

Passei os meses de março a junho de 2022, assistindo `as aulas e estudando o Zen-Budismo como nunca tinha feito. Não só o material oferecido como também a disponibilidade de todos os monitores do módulo me encantou. Nesse período, pude rever a história de mestre Dogen, sempre em busca de um mestre que ¨desse conta¨ de suas questões.

A realidade histórica de Dogen me fez pensar na minha própria questão. Das Três Joias, o Buddha eu tentava imitar em minha prática, o Dharma tentava estudar dentro de minhas condições, escutando meu mestre no MZMV e também lendo e estudando livros zen-budistas. Infelizmente, a terceira joia, que é a Sangha, me faltava, pois não tinha uma comunidade zen-budista nem em Governador Valadares, nem quando mudei para Belo Horizonte em 2019. 

Com o conhecimento da Daissen vislumbrei a perspectiva que poderia aprofundar-me não só no conhecimento do zen-budismo, pelos módulos oferecidos, como também pela intensificação de minha prática zen-budista, pois o grupo do Daissen-Belo Horizonte havia acabado de ser estruturado por dois praticantes comprometidos. Além disso, havia um mestre sensei que já tinha me acolhido com muito carinho.

Na mudança de uma instituição para outra, é de praxe que o novo mestre só concorde em aceitar o novo discípulo depois dele ter conversado com o antigo, expor as razões da saída e solicitar a permissão para ser discípulo do novo mestre. Depois dessa conversa, há a necessidade de uma interlocução entre os dois mestres e só depois se dá ou não a aceitação pelo novo mestre. Esses encaminhamentos foram passados no primeiro dokusan (entrevista) que fiz com Sensei Genshõ.

A conversa com meu antigo mestre, Daiju Bitti, aconteceu no retiro de setembro de 2022 no MZMV. Depois, o Abade Daiju Bitti e Sensei Genshõ conversaram e a partir do mês de outubro não só passei a frequentar a comunidade Daissen de Belo Horizonte como também me tornei um colaborador do Daissen, além de estar já matriculado no 2º Módulo de Aprofundamento de Estudos sobre o Zen-Budismo.

A junção das Três Joias se fez presente a partir desse momento, pois passei a fazer frequentemente dokusan com Sensei Genshō, falando sobre o momento que estava vivendo. Continuei a estudar o Zen-Budismo por meio de leituras selecionadas, com monitores e o Sensei leigo João Joken, muito competente. Mas o mais significativo foi também encontrar uma Sangha constituída no local onde resido e poder conviver com pessoas diferentes de min e com isso aprofundar a minha empatia, minha disponibilidade e também a harmonia com os outros.

Outro passo significativo na apreensão aprofundada do conceito de vacuidade ou Sunyata, foi o contato com o livro Versos Fundamentais do Caminho do Meio (Mulamadhyamakakarikã ou MMK) de Nagarjuna. Esse monge do século II aprofunda várias noções do Budismo (sofrimento, realidade em si, tempo, causa e efeito, surgimento e dissolução, as Quatro Nobres Verdades, entre outras).

Em todos os capítulos ele apresenta o conceito, as objeções aos conceitos pelas escolas que existiam nesse período e contrapõe a cada objeção suas afirmações, reafirmando seu posicionamento e também a congruência deste com as posições do Buddha histórico.

Nagarjuna trabalha no seu livro o conceito de vacuidade no capítulo XXIV. Nele o autor explicita que a vacuidade é o alicerce onde toda a construção dos ensinamentos de Buddha se apoia. Além disso, ele destaca que o conceito de vacuidade está implicitamente ligado ao conceito de co-originação dependente.

Para Nagarjuna, nada existente tem uma substância ou essência independente de outras coisas. Usando a terminologia de Thi, tudo interage com outros seres. A folha de papel onde escrevemos histórias ou recados é prenhe de outros seres, os raios do sol, o lenhador, a floresta que deu origem à madeira, a chuva que propiciou o crescimento da floresta. Tudo é interdependente. 

A vacuidade também está ligada a noção de Impermanência, pois é porque tudo é interligado e conectado que há movimento, transformação, crescimento e também dissolução. A vacuidade também reafirma a noção de não eu, uma vez que, se tudo no universo é interdependente, nada pode ter uma existência independente.

Lama Samten (2010) destaca que o conceito de vacuidade está atrelado à co-originação dependente, que por sua vez é melhor compreendido quando o inserimos na roda da vida ou samsara. No centro da figura da roda da vida se encontram três animais: o javali, simbolizando a ignorância, o galo, a ganância e a serpente, a raiva. Estes animais são conhecidos como os três venenos da mente. Eles são as energias que movem a roda da vida.

A co-originação dependente é formada por 12 Elos que aparecem simultaneamente e estão conectados por meio da tristeza, dor, lamentação que são o combustível que faz a roda girar e está presente tanto no início como no final do processo.

Esses elos é que movimentam os ventos que nos aprisionam. Eles são complexos e têm vários aspectos a serem analisados. Monge Genshõ percorreu cada um deles nos seus ensinamentos de sábado pela manhã por 12 semanas. Eles são: 1) Ignorância; 2) Formações Volitivas; 3) Consciência da Dualidade; 4) Mentalidade e Materialidade; 5) Seis Bases do Sentido; 6) Contato; 7) Sensações; 8) Ânsia; 9) Apego; 10) Intenção de Identidade; 11) Nascimento; 12) Dissolução paulatina que leva à morte.

Estudar e compreender estes 12 Elos é entender como estamos aprisionados no samsara, e é uma maneira de olhar e nos direcionarmos para o nirvana. Ou seja, um mundo sem paixões, o mundo sem apego a sentimentos negativos e/ou positivos com qualquer coisa.

Samten, monge e autor do livro A Roda da Vida, enfatiza que o caminho de libertação pode ser conseguido através da meditação silenciosa que nos permite retirar de forma gradativa as artificialidades da mente:

“Ao final desse caminho, que pode ser longo, não mais existem observador e objeto, mas sim uma natureza viva e pulsante. Não encontramos um ser ou uma identidade, mas uma lucidez, uma presença luminosa e livre. (…) “Podemos olhar a vacuidade como se fosse um buraco, um nada, como os niilistas fazem. Mas não fazemos isso: no Prajnaparamita, a vacuidade é apresentada inseparável da luz infinita, que atribui significado a tudo, dá origem a todas as formas. Forma é vazio, e vazio é forma, diz o sutra. Portanto, a vacuidade é uma abertura onde a luminosidade se manifesta incessantemente ativa. (Samten: 2010, p. 103 e 104).

Para prosseguir nesta caminhada, no segundo semestre de 2024, conversei com o Roshi Genshō em um dokusan e solicitei que fizesse o meu segundo Jukai, com dupla finalidade: tornar-me oficialmente discípulo do Roshi Genshō e também para poder certificar e aprofundar a minha filiação ao Daissen. Este segundo Jukai aconteceu no dia 4 de março de 2025 no Sesshin de Brasília.

 

Continuo minha caminhada, praticando Zazen diariamente, respirando profundamente a cada momento presente, contribuindo sempre com a sangha de BH e também participando de tantos sesshins quanto posso.

Texto de Adilson Jyundo. Praticante na Comunidade Zen-Budista Daissen. Escola Soto Zen

Bibliografia

  1. Palestra do Monge Budista Joaquim Monteiro. Título: Mente e Consciência na Perspectiva do Budismo. Parte 1. https://www.youtube.com/watch?v=A7lKQTFbAHk&t=440s&ab_channel=KTTBRASIL. Ouvida em 11/03/2024;
  2. HANH, Thich Nhat. O Coração da Compreensão. Comentários ao Sutra do Coração, Prajnaparamita Sutra/ Tradução de Enio Burgos. Porto Alegre, R.S.: Bodigaya, 2000.
  3. NAGÁRJUNA Versos Fundamentais do Caminho do Meio (Mulamadhyamakakarikã). Tradução, comentários e notas de Giuseppe Ferraro. Campinas, S.P.: Editora Phi, 2016.
  4. SAMTEN, Lama Padma. A Roda da Vida – como caminho para a lucidez. São Paulo: Peiropólis, 2010.
  5. SUZUKI, Shuryu. Mente Zen, Mente de Principiante. São Paulos: Palas Atenas, 1994.

 

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